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terça-feira, 30 de agosto de 2016

Um trecho marcante de Jeff VanderMeer


“Ave fantasma, você me ama?”, sussurrou ele uma vez na escuridão, antes de partir para o treinamento para a expedição, mesmo sendo ele então o fantasma. “Ave fantasma, você precisa de mim?”
Eu o amava, mas não precisava dele, e achava que era assim que as coisas deveriam ser. Uma ave fantasma podia ser um falcão em um lugar e um corvo no outro, dependendo do contexto. O pardal que disparava em voo no céu azul em uma manhã podia se transformar em uma águia-pescadora em pleno voo na manhã seguinte. As coisas eram assim, aqui. Não havia razões tão poderosas a ponto de sobrepujar o desejo de estar em harmonia com as marés, com a mudança das estações e com os ritmos que regiam todas as coisas ao meu redor.
Jeff VanderMeer - Comando Sul vol. 1: Aniquilação, 2014


Fotografia de Ed King

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Conto: Sob as brumas repousa o inominável




Olive caminhava apressado por entre a neblina e os prédios de Misttown. Era pouco mais que duas da tarde, mas o entulhamento das vias, lotadas de carros e pedestres, combinado com a parca luz que chegava ao chão, filtrada pela onipresente cerração e pela poluição, o faziam ter a sensação de que era bem mais tarde — talvez seis ou sete da noite. E ele agradeceria se fosse; a ansiedade pela noite nublava a plenitude do dia. Há quanto tempo ele esperava por aquela noite? Teve vontade de correr, mas uma revoada de pássaros o assustou.

“Pidgeys por todos os lados”, pensou, vendo os pássaros marrons sumindo na neblina. “Transmitindo doenças e emporcalhando estátuas e telhados… e todo o resto.”

Ele se lembrava de quando as coisas não eram assim. Os animais eram puros; suas populações eram controladas… e eles nem eram chamados assim ainda, genericamente, animais. Haviam muitos que também se lembravam, assim como ele — mas esses muitos eram massa, não tinham opinião como ele. Estavam domados pela mídia, doutrinados, estupidificados. Olive se lembrava de quando a nova ordem entrara em vigor — e isso, para ele, significou muito mais do que para os outros, para os não–treinadores. Ele se lembrava de quando fora obrigado a abandonar seus amigos, escolhendo apenas um; ele se lembrava quando esse um, seu primeiro, um rapidash, definhara até o fim. Todos os que eram treinados definharam, e os que nunca foram se distanciaram cada vez mais de suas origens elementais, se animalizaram cada vez mais…

Olive se lembrava do nome do seu rapidash, e que era um nome que ele jurara nunca mais pronunciar.

Mas a noite chegou, finalmente. Olive parou de andar erraticamente e dirigiu–se ao subsolo da antiga fábrica CryTech. Os neons da cidade tingiam a neblina de laranja e vermelho, naquela rua, e ele venceu disfarçadamente a cerca meio destruída e adentrou as ruínas. Depois do primeiro lance de escadas para baixo, um grandalhão armado o impediu. Ele mostrou sua insígnia e sua passagem foi autorizada. A porta acústica lhe foi aberta. Olive entrou num andar lotado de pessoas, luzes e alegria. Aquele lugar era apenas um único e gigantesco salão, com o piso transformado em degraus descendentes, com uma cobertura rústica de cimento grosso, até o centro do salão, já a metros abaixo dele, onde o evento iniciava. Olive buscou a mesa de juízes e informou sua presença. Como seria o último competidor da noite, no evento principal, apenas circulou por ali. Recebeu muitos cumprimentos, felicitações e abraços. Acompanhou com pouco interesse a primeira competição, de um menino contra uma menina, entre um rattata e um weedle, visivelmente iniciantes — no entanto, era naqueles jovens treinadores que estava o futuro da Liga de Kanto.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Sombras de reis barbudos, de José J Veiga


Curioso que José J Veiga não se considere um autor do gênero realismo mágico... porque a obra da qual eu mais me lembrei ao ler o Sombras de reis barbudos foi justamente Cem anos de solidão. Tudo que há numa, há noutra: a cidade pequena, encerrada em si mesmo, alheia do mundo externo; a interferência desse mesmo mundo externo como algo mal visto; os elementos fantásticos acontecendo como algo corriqueiro; os personagens que pouco reagem frente a esses eventos misteriosos, como se os eventos familiares fossem muito mais importantes que eles...

O Sombras é de fato um livro muito bom, bem mais curto do que o Cem anos, mas igualmente marcante. Existe alguma coisa mesmo que marca a narrativa desses autores sul-americanos, não sei o quê, alguma poética, alguma característica narrativa que torna o mundano algo meio etéreo... Nos causa um interesse no corriqueiro, uma atração que supera trama, plot twists, ação... Sinceramente, não consigo entender o que é. Talvez seja somente o talento mesmo.

Só sei que estou motivado a procurar outras obras do autor :)



• Livro: SOMBRAS DE REIS BARBUDOS •
• Autor: JOSÉ J VEIGA •
• Editora: Bertrand Brasil •

Personagens: ★★★★☆
Trama: ★★★★☆
Escrita: ★★★★
Ambientação: ★★★★
Revisão: ★★★★☆
Capa: ★★

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Um trecho marcante de Afonso Schmidt


E o professor, sem se conter: 
— Mas eu me sinto mais vivo do que nunca! Olhem a minha mão... Reparem bem... Ainda é a mesma de carne... Vejam como eu arranco este botão...

Anselmo respondeu-lhe:

— Isso não prova nada. Estamos num mundo etéreo, como já estivemos no mundo físico. Esta casa já não existe na terra, mas na luz, e nós a seguimos através do espaço, como um dia seguimos a terra em direção à constelação de Hércules. Não é paraíso, purgatório ou inferno; é uma lei espiritual de causa e efeito.

"Quem planta uma semente colhe uma flor, um fruto, ou encontra, um dia, no mesmo lugar, um ramo de espinhos. As coisas só nos vêm às mãos quando já estamos acima delas e é por isso que muitos colocam a sua felicidade nas mãos alheias ou então num futuro remoto, quando a verdade é que ela sempre está em nossas mãos e a vida sempre começa, não no dia seguinte, mas no instante em que se pensa. As existências que nós desejamos são lições já aprendidas, sem lembrarmos de que cada dia traz o seu ensinamento e que cada página estudada é logo voltada. A maioria dos homens passa a vida num jardim da infância, são espíritos jovens, precisam de brinquedos e flores; mas os outros, que pensam e sofrem, estão já em pleno caminho da sabedoria e, à proporção que o nosso curso adianta, as lições se tornam mais duras. Mede-se a grandeza pelo sofrimento. Dante, Tólstoi, Cristo... Há um dia em que a felicidade se torna ridícula; um homem feliz é como um ancião que se diverte com um polichinelo. Nós temos de sofrer e cada vez mais, até nos colocarmos acima da dor; nesse dia, teremos alcançado a singeleza das crianças, conversaremos com os seres aparentemente inanimados e um raio de sol valerá mais para qualquer de nós que o trono de um rei.

Afonso Schmidt — Delírio, 1934


Fotografia: Martin Brigden

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Contos do Dragão: Paid in full


"Ainda me lembro que, naquela hora, somente um toque do aparelho foi necessário para que eu o atendesse. “Como vai, senhor Cronin?”, eu vi o homem dizer, sorrindo, sórdido, um sorriso de canto de boca. “Calma, calma, tudo está bem, sua linda esposa está bem, por enquanto”, ele continuou. Da primeira vez, eu só o ouvi, e então o estava vendo. Lembro-me, contudo, Agatha, exatamente de todas as palavras, nas duas vezes que as ouvi. Você não imagina quantas vezes eu as repeti em minha cabeça!, antes e depois de… Enfim. Ele continuou. “Mas não estou gostando de sua demora, sabe como é. Hoje em dia, a polícia demora muito a atender pedidos de socorro, não é mesmo?” 
Percebi que você me ouviu gritar do outro lado da linha; eu mesmo ouvi, dali. O sequestrador sorriu. “Não sejamos tão grosseiros, meu amigo”, ele disse. Ele sempre me chamou assim, e eu sempre senti o mesmo asco quando o ouvia, e ainda sinto. O mesmo asco que senti quando vi que ele corria a ponta da arma pelo seu rosto, pela sua nuca… Isso eu não soubera, antes. Você riria de mim se visse como eu maldisse a minha impossibilidade de agir, da mesma forma que sempre ria dos meus ataques gratuitos de nervos. “Você deve prezar pela integridade de sua mulher… Ou da maior parte dela”, ele disse, exatamente quando atirou em sua perna. Nem nessa hora você gritou, minha brava esposa… Curioso, eu não me lembro do que disse para que ele reagisse assim, das minhas falas eu nunca me lembro. Certamente, alguma estupidez, daquelas que eu sempre digo. 
E enquanto você desmaiava, em silêncio, eu gritava no telefone, e gritava assistindo à cena, impotente, e confesso que ainda grito à noite, às vezes, quando acordo após sonhar com aquilo tudo."

Compre o conto Paid in full — por apenas R$ 2,99 — aqui!



domingo, 7 de agosto de 2016

Relendo Harry Potter - Livros 1 a 3


A primeira vez que li a saga de Harry Potter foi na minha adolescência, ainda que um pouco atrasado em relação à febre mundial — devo ter lido o primeiro livro lá pelos meus 14 anos. Li até o 4.º livro direto, e até então tinha visto somente o 1.º filme. A partir daí a coisa desandou. Nunca tive acesso ao 5.º livro e ganhei de presente o 6.º, então o li sem saber direito o que tinha acontecido no anterior, e aí passei a acompanhar somente os filmes. Vi o final da saga nos cinemas, e assim sempre fiquei com aquele gostinho de "falta algo" — mesmo porque eu, um colecionador de livros (ao menos dos livros que eu gostei), só tinha 1 único livro.

Foi quando eu vi o box da edição de colecionador da Rocco num sebo daqui de Sorocaba. Pensei muito pouco sobre o assunto: troquei lá 90% dos meus CDs originais de rock e metal pela linda caixinha.



E então decidi reler toda a saga, na ordem certinha, sem pular nada — e, dessa vez, com olhos críticos, e atento às falhas que porventura encontrasse. À essa altura, as surpresas já não deveriam ofuscar os defeitos. De fato, eu esperava, na releitura, já batendo nos 30 anos de idade, perceber como realmente os primeiros livros seriam exclusivamente para deleite de adolescentes.

Já comecei errado.

Harry Potter e a pedra filosofal se revelou até melhor na releitura. Sei que gostei da primeira leitura, apesar de isso fazer muitos anos já, mas o brilho da história criada pela J K Rowling só aumentou, para mim. É realmente incrível o que ela fez ali. Pegou elementos folclóricos já conhecidos e deu a eles uma cara muito própria. Criou personagens com bastante personalidade, desde os protagonistas até os secundários (e mesmo os "figurantes"). Não sei dizer se o mérito é da própria autora — porque nunca a li em inglês — ou da tradução, mas o estilo de escrita é muito agradável; não há excesso de adjetivação, não tem aquela mania irritante de só escrever com frases curtas, e não subestima o público-alvo — supostamente por volta dos 11 anos — com construções frasais bobas. Inclusive, ao longo da série, é muito interessante ver como os temas vão ficando mais sérios e assuntos mais pesados vão sendo abordados. A trama desse primeiro livro é muito divertida; bastante coisa do universo bruxo é apresentada e nada parece gratuito, mesmo vendo com os olhos de quem já conhece o fim da saga. O plot twist do final é bem fundamentado, e realmente deixa o gostinho de "quero mais".

O problema é que a sequência, Harry Potter e a câmara secreta, para mim, é o livro (e o filme) mais chato de todos. Existe sempre a brincadeira de que, quando a primeira obra de um artista é muito boa, as expectativas da segunda são exageradas — e, consequentemente, a pressão sobre o artista é maior. Não sei se a J K sofreu desse mal, mas parece que sim. Ainda que sejamos apresentados a novos personagens — um deles o interessante elfo doméstico Dobby —, o livro resolva algumas pontas do anterior e o clima seja tão aventuresco quanto o de A pedra filosofal, o final me desagrada um tanto. Há quem diga que não foi um deus ex machina, mas para mim foi, aquele lance da fênix. Ainda bem que as coisas melhoram daqui para frente.

Porque Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban se confirmou, nessa releitura, o livro que mais gosto entre todos os que li, e provavelmente o melhor filme (dá um páreo duro com o filme do Enigma do príncipe). Nesse livro, a trama fica mais séria — e, por que não dizer?, mais adulta —; novos elementos são apresentados, ampliando o mundo dos bruxos para fora de Hogwarts; e a trama é a melhor dos três livros, com bastante surpresas para o final. Além disso, nesse livro entra um dos personagens mais queridos pelos fãs, o Sirius Black. E, com ele, vem, pela primeira vez solidamente, o grande vilão da série. É nítido também a melhoria constante na escrita da autora, que, até aqui, demonstra total controle da trama e do que quer causar em termos de sentimento nos leitores.

Como nesse post falei de uma vez sobre os 3 primeiros livros, não achei legal detalhar muito cada um deles; contudo, a partir de agora — já que os livros ficam cada vez mais grossos —, vou fazer um post comentando sobre cada um, e, então, entrar mais nos detalhes, inclusive voltando nos anteriores quando for o caso.

Já comecei, inclusive, o 4.º livro, com a certeza de que todo esse tempo de leitura, que eu poderia estar dedicando a coisas novas, não será de forma nenhuma perdido.

sábado, 6 de agosto de 2016

Conto Noturno Deserto, na revista Trasgo #10


E, para minha imensa satisfação, mais um conto meu foi publicado! Definitivamente, 2016 está sendo meu ano de estrear no mundo publicado da literatura fantástica brasileira com os dois pés no peito! Agora, além dos outros cinco contos, lançados pela editora Draco, que faz um trabalho incrível com os autores nacionais, saio na melhor revista nacional de literatura fantástica, a Trasgo, em sua 10.ª edição! (Os links para compra dos meus contos estão ali do lado direito, sob o título Minhas obras publicadas.)

Noturno deserto é um conto muito querido. É a minha primeira incursão na Segunda Era de Acqua, e a primeira vez que trabalho exclusivamente com seus deuses. O conto My shadow plan se passa na Quarta Era, e meu primeiro romance, que deve sair muito em breve, de onde esse conto foi derivado, também. O Noturno deserto, contudo, foi um desafio. Sempre adorei o tema dinossauros, e pensei, então: onde — e como — eles se encaixariam em Acqua, que é uma versão de nosso mundo? Por que os deuses os teriam criado (teriam?), e deixá-los serem extintos depois? Eles teriam controle sobre isso? E se não, que espécie de deuses eles seriam então?

É com esses questionamentos que os deixo. A revista Trasgo traz também outros contos, naturalmente, nessa edição, e pode ser baixada de graça, em formato .mobi, .epub ou .pdf aqui, no site oficial da revista — e, apesar de eu ainda não ter lido os outros contos, tenho segurança em atestar que eles serão ótimos. Já li cinco edições da revista e ainda não me decepcionei com nenhum (bem, na verdade, apenas com umzinho). A edição e a revisão da revista são impecáveis; o trabalho de seu idealizador, o Rodrigo van Kampen, é impecável.

Enfim, recado dado, espero que gostem do noturno deserto de Acqua :D



Se, no entanto não quiserem baixar a revista toda, o conto também está disponível para leitura no site, também de graça, nesse link:


Além disso, também está online a entrevista que eu dei para a revista, falando das minhas influências e dos meus outros projetos:


Deem um pulo lá, leiam e, se possível, se tornem padrinhos dessa revista excelente, que é atualmente um dos melhores veículos de divulgação de novos autores de literatura fantástica que temos!

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Contos do Dragão: Nil


"— Não quer olhar ao redor, Nil? — perguntou Yas, e era a primeira vez que falava depois da entrada na Região Além. 
Nil apenas assentiu com a cabeça; não desejava realmente fazer aquilo, mas não podia deixar de atender a uma ordem de Yas — além de sua casta não permitir, ele também não o desejava. Abriu suas quatro asas e ergueu-se no ar rapidamente, com um zumbido agradável, do qual sempre foi alvo de elogios dos mais velhos, que sempre costumavam dizer, nostalgicamente, que os jovens já não eram tão elegantes quanto antes. Deixando Ref com um olhar de preocupação, Nil finalmente venceu a copa das flores e ultrapassou as gramas mais altas. Apesar de aquela altura toda lhe dar vertigem e ele realmente não desejar olhar, viu o mundo que se desdobrou ao seu redor."



quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Um trecho marcante de George R R Martin


A arquibancada já começava a encher; os senhores e senhoras apertando os mantos de encontro ao corpo para se proteger do frio da manhã. Os plebeus também perambulavam em direção ao campo e centenas deles já se aglomeravam ao longo das cercas. Tanta gente veio para me ver morrer, Dunk pensou com amargura, mas estava sendo injusto. A alguns passos dali, uma mulher gritou: 
— Boa sorte para você. 
E um homem deu um passo adiante, pegou sua mão e disse: 
— Que os deuses lhe deem forças, sor. 
Então um irmão mendicante, em uma túnica marrom esfarrapada, abençoou sua espada e uma donzela lhe deu um beijo no rosto. Estão do meu lado. 
— Por quê? — perguntou a Pate. — O que eu sou para eles? 
— Um cavaleiro que se lembra de seus votos — o ferreiro respondeu.

George R R Martin - O cavaleiro dos Sete Reinos, 2010



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Sentimentos à flor da pele, organizada por Vilto Reis e Anna Schermak


Enfim chegou às minhas mãos a tão aguardada antologia Sentimentos à flor da pele, organizada pelo Vilto Reis do podcast 30:MIN e pela Anna Schermak, ex-LiterárioCast, e que traz contos dos membros da podosfera literária brasileira. Além desses dois podcasts já citados, temos a presença do CabulosoCast, do LivroCast e d’O Drone Saltitante. O projeto desse livro foi lançado no Catarse, plataforma de financiamento coletivo, e viu sua luz nesse primeiro trimestre de 2016, onde há pouco chegou às minhas mãos e foi prontamente degustado. E agora será triturado, debulhado, eviscerado. Como eu esperei esse momento, bwahahaha…! E acham que essa minha empolgação é por amor a esses podcasters, que me acompanham tantas horas por semana?

Nananinanão. É porque agora eu terei a chance de me vingar de todos os livros e autores que eles já esculacharam em seus programas. Brincadeira; eu amo mesmo esses podcasters — mas serei totalmente honesto, como acho que eles esperam que todos sejam. (Preciso falar que tudo o que direi se trata apenas de minha opinião? Espero que não. Ops, já falei.)

Assim sendo, vamos começar pela antologia em si.




Sentimentos à flor da pele. Que nome ruim. Sério mesmo. Parece sugerir que você encontrará histórias água-com-açúcar, tipo Julia, Sabrina ou Nicholas Sparks. A ideia era que os sentimentos personificassem-se como os Perpétuos de Neil Gaiman em Sandman — e isso é dito na apresentação —, mas o título passa tudo menos isso. Se você acompanha esses podcasts, já sabe que rolou uma treta quando da escolha do nome da antologia, e eu começo a imaginar que qualquer um dos outros nomes propostos devia ser melhor do que esse. No entanto, achei muito legal a ideia da antologia, e torci para que desse certo — como deu, ainda que nos últimos instantes do prazo para o financiamento. Só acho que o resultado final podia ser um pouco melhor.

Dito isso, vamos aos contos.


1.º: Aquele terno maldito e aquele maldito gato, de Anna Schermak

Fala sério, que título daora! Muito legal mesmo… o título. Como não temos (ao menos no começo da obra) o sentimento que cada podcaster escolheu para usar, vou me ater aqui ao que imaginei ser — e, nesse caso, foi a Vingança. A história é interessante até o seu ato final abrupto deixar uma sensação de mas hein…? (Não vou falar dos plots porque os contos são todos bem curtos, e a descoberta deles é tão interessante quanto seus clímaces.) A ideia do conto até que foi interessante, mas podia ter sido bem melhor construído e, com isso, ganhar mais brilho. Tem uns momentos interessantes, contudo, apesar de fugir do tema proposto, que é personificar um sentimento, e não trazê-lo a um personagem (contudo, esse sentimento aflorado dialogou com o título, apesar de contradizer a apresentação da antologia). Nota 2 de 5.

Atualização ao fim da leitura: Errei o sentimento; era a Solidão.

2.º: O bosque da depressão, de Andrey Lehnemann [LivroCast]

Aqui o negócio engrena. E de vez. Com vontade. E digo mais: o melhor conto da antologia. O sentimento usado aqui é, obviamente, a Depressão, e essa história tem um nível de profundidade tão grande que funcionaria — que funcionará, tenho certeza — igualmente bem fora do contexto dessa obra. O autor escreve muito bem mesmo, não deixa aquela impressão de “novatismo” que outros transpareceram, e é forte, inquietante, perturbador. Nota 5 de 5.

Atualização ao fim da leitura: Acertei o sentimento :) (foi fácil essa, né?)

3.º: Existe amor na rua Paiquerê, de Cecília Garcia Marcon [30:MIN]

Ahá! Tem pegadinha aí, tenho certeza! Apesar de ter amor no nome, acho que o sentimento que é retratado nesse conto é a Solidão. Sua história instigante traz um protagonista muito interessante, e é o primeiro que traz o sentimento realmente personificado (ainda que O bosque da depressão também o traga na forma de um personagem — o próprio bosque). Um conto bem legal mesmo. Nota 3,5 de 5.

Atualização ao fim da leitura: Errei o sentimento; era a Obsessão. Fez sentido, embora eu achasse melhor se fosse a Solidão.

4.º: Mais uma bomba caiu no meu jardim, de Domenica Mendes [CabulosoCast]

Outro conto que fugiu do tema, como o primeiro. Aqui, transparece a preferência da autora pelas distopias young adult — e se você acompanha o podcast, deve ter percebido isso também. No entanto, achei o conto muito simples, sem nada marcante, raso até. Tanto que o sentimento que me pareceu permear a personagem foi a Apatia. Se era outro, não me foi possível captá-lo. Apesar da ambientação ser interessante, não difere muito de tudo o que já foi feito antes em distopias YA. Nota 2 de 5.

Atualização ao fim da leitura: Acertei na mosca; ponto para a autora.

5.º: Sua herança, de Igor Rodrigues [O Drone Saltitante]

Gostei desse conto, de verdade. Sentimento retratado: Ódio. Ou Ira. Ou Fúria. Aaaargh!!! He he. Fez bem jus à aura polêmica e inflamatória que o autor já criou na podosfera. Ele havia, inclusive, comentado que achava que o título não fazia sentido; no entanto, fez sim, e bastante. Esse é um mal do qual o conto não sofre. O autor usou um recurso que aprecio: não explica nada logo de cara. Confundi-me no começo sobre quem era o quê de quem, mas isso — imagino — foi de caso pensado e funcionou muito bem. A atmosfera foi bem trabalhada, e foi uma boa estreia do autor, apesar do final meio rocambolesco. Nota 3 de 5.

Atualização ao fim da leitura: Acertei a ideia, mas errei o nome do sentimento: era a Raiva.

6.º: O grande duelo, de Jefferson Figueiredo [30:MIN]

Outro cujo tema seria fácil de prever mesmo antes de ter a antologia em mãos, por causa das claras preferências do autor — westerns. Apesar de também ter (segundo o meu entendimento) fugido do tema, foi um conto bom, simples, mas talvez por isso mesmo tenha funcionado. É a história de um acerto de contas tardio; um ponto final em duas vidas sem sentido — e foi criado um passado interessante para os personagens, mesmo que tenha deixado margem para especulação (e acho que isso também seja um ponto a favor). Creio que o sentimento aqui retratado foi o Ressentimento, mas não estou muito certo. Nota 3 de 5.

Atualização ao fim da leitura: Errei o sentimento; era o Ódio. Não achei bem retratado, então. Está mais para ressentimento mesmo.

7.º: N. A. (Nostálgicos Anônimos), de Lucas Rafael Ferraz [CabulosoCast]

Junto com os contos do Igor, da Cecília e do Marcelo, esse fez exatamente o que a antologia pedia: um sentimento personificando-se — e, nesse caso, a Nostalgia. No entanto, o autor foi tão sutil na narrativa que talvez passe despercebida a “verdadeira verdade” de quem está por trás dos acontecimentos narrados. Contudo — e talvez por isso mesmo —, é um conto bastante inteligente, que não joga o segredo na cara do leitor. Achei ele muito bom mesmo. Nota 4 de 5.

Atualização ao fim da leitura: Acertei o sentimento, esse nem tinha como errar :P

8.º: Onde não deveria estar, de Marcelo F. Zaniolo [LivroCast]

O sentimento personificado aqui é claro e se anuncia: o Medo. Esse foi um conto muito bom, quase uma fábula; bem desenvolvido, bem escrito e bastante atmosférico. O personagem é interessantemente construído, de uma forma pouco convencional no que se trata de seu trauma, e seu antagonista é otimamente caracterizado. Nota 4 de 5.

Atualização ao fim da leitura: Outro que acertei, e outro que não tinha erro.

9.º: Ratos em sangue, de Mateus Lins [LiterárioCast]

Interessante esse conto. Curioso mesmo, uma vez que o autor é conhecido por ser autor de literatura juvenil. Aqui, ele amplia esse escopo e nos mostra uma história adulta, densa e cruel, numa construção atmosférica e melancólica. Apesar de achar que somente sentimentos negativos foram escolhidos, não consigo ver outra coisa que não a Esperança personificada na protagonista. Só acho que faltou um “quêzinho” que não consigo identificar… talvez na escrita… talvez no desenvolvimento… enfim. Nota 3 de 5.

Atualização ao fim da leitura: Errei o sentimento; era o Escapismo. Espera; isso é sentimento?

10.º: Peixe fora d’água, de Vilto Reis [30:MIN]

Apesar de também ter fugido à proposta (a não ser que o sentimento seja o peixe, he he), é um conto bom. Toca num tema que eu gosto muito — a crítica à fé cega e à autoridade irrefletida. Minha opinião do sentimento aqui retratado é um chute descarado: seria a Liberdade? Não me ficou muito claro. Nota 3 de 5 também.

Atualização ao fim da leitura: Errei o sentimento; era o Poder. Faz sentido, mas assim faz mesmo o conto fugir da proposta.


A antologia fecha então com uma nota 3,25 de 5 — e acho que foi justa. Tem uns contos bem bons, mas outros nem tanto. Claro que, para uma primeira antologia podosférica, está de muito bom tamanho; o design gráfico do interior está ótimo, ainda que a capa tenha pecado em um detalhe: além do título fraco, gerou muitas piadinhas, porque a palavra pele estava em destaque e passou-se a chamar a antologia de “o livro do Pelé”. Claro que foi uma brincadeira, mas não custava ter dado uma melhorada ao menos no design do título que já era ruim por si só.




Que venha a segunda antologia então, porque espero com curiosidade os contos do Lucien o Bibliotecário e da Priscila Rúbia do CabulosoCast; do Diego Lokow do LivroCast; da Diana Ruiz d’O Drone Saltitante… e claro, também, dos podcasts e podcasters esquecidos nessa: o Rodrigo Basso do Covil de Livros; da Melanie Yee e do Thiago Alves do Agentes do L.I.V.R.O.; da Gabriela Ventura do Taverna do Fim do Mundo; e do Ricardo Herdy e do Raphael Modena do Ghost Writer.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Contos do Dragão: Aquecimento global (Em fogo alto)


"Sentada no banco da praça, num canto onde não havia tantos cadáveres, eu olhava para a vacuidade do mundo. Como se meu cérebro se recusasse a pensar em alguma coisa mais prática, a única coisa que me vinha à cabeça era que logo, logo, aqueles cadáveres iriam começar a feder e com certeza não seria possível escapar do cheiro. Naquela hora da tarde, a luz solar, aquela mesma, que dizimara sonhos e projetos e amizades e amores, lançava uma quentura acalentadora no mundo, alongava sombras até seus limites e pintava tudo com uma paz etérea e ao mesmo tempo permanente, típica das coisas que vão ficar para todo o sempre e que não vão se importar com o que se pensa delas. E, falando nisso, eu não vou mentir que me importava com todas aquelas pessoas mortas — eu não me importava. Estava até feliz em estar sozinha. Por muitas vigílias eu pedi por isso."

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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Contos do Dragão: My shadow plan


Desde o início da “maldição” — e assim era como seus próprios cidadãos a chamavam —, muito poucos viajantes passavam por Agliana por escolha própria, e muitos, quando o eram obrigados, se benziam com o gesto característico de seus deuses ao entrar e ao sair da cidade. O sol não chegava ao interior daqueles muros, e as pedras cinzentas, com as quais toda a cidade era construída, só ajudavam a tornar ainda mais deprimente o clima da urbe. A única iluminação das ruas era a artificial, e, ainda assim, muitas ruas pareciam muito mais escuras do que poderia ser considerado seguro. 
Seguindo a viatura do decurião Maurillion, Yan dirigiu sua van por várias ruas escuras, frias e úmidas, até que chegaram à residência do regente Dragan. Como a grande maioria das casas da rua, a do regente não tinha nada de especial; era feia, de dois andares, espremida entre as outras, como se todas estivessem lutando pelo seu próprio espaço. 
Com duas batidas secas à porta, Maurillion foi atendido pelo mordomo do regente, com a hospitalidade típica dos habitantes da cidade amaldiçoada — sem uma única palavra, ele deixou a porta aberta e virou as costas para os cinco visitantes. 
— Suponho que isso signifique que podemos entrar, nos sentir em casa e que estão todos muito felizes em nos acolher, certo? — perguntou Jess. 
— Vá se acostumando, meio-celta — respondeu Maurillion. — Aqui não receberá tratamento diferente." 
(...)

“Juntamente com seus dois investigadores da legião, acompanhou-os até a casa de Nimatore o chefe da polícia de Agliana. Sob a chuva lúgubre, pararam defronte a uma suntuosa mansão, com um jardim que certamente fora belo nos dias em que o Sol visitava a cidade, há décadas atrás. Andrea Maurillion chamou, bateu com o cabo de seu gládio no metal do portão, mas não foi atendido. Não se notava movimento na residência, e nenhuma luz estava acesa. 
Após algumas tentativas, o decurião perdeu a paciência. Preparou-se para arrombar o portão, ornado com um grande “N” duplo, esculpido em cobre ou assemelhado. Foi impedido, entretanto, por uma voz rouca e levemente sibilante, vinda de trás dele. 
— Não desperdice suas forças, soldado. 
Virando-se, Yan, Roy, Jess e Lavínia viram se tratar do conselheiro guaír que viram na Câmara mais cedo, e que ainda estavam com as vestes oficiais. 
— Conselheiro — disse Roy. — Está nos seguindo? 
— De certa forma — disse ele. — Sabia que, se fossem bons, chegariam a esse resultado — completou. Cada palavra que dizia com o fonema “s” soava como se fosse “sh”. 
— Sabia que viríamos aqui? — perguntou Lavínia. 
— Digamos… que eu saiba algumas coisas que vocês não — disse o guaír. 
— Nimatore não está aqui, não é? — perguntou Yan. 
— Não. Mas posso dar uma boa explicação… se vocês me acompanharem."


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