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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Um trecho marcante de Philip K Dick


— Este prédio, tirando o meu apartamento, está totalmente bagulhificado. 
— Bagulhificado? — ela não entendeu. 
— Bagulho é todo tipo de coisa inútil, como correspondências sem importância, caixa de fósforos vazia, embalagem de chiclete ou homeojornal de ontem. Quando ninguém está por perto, o bagulho se reproduz. Por exemplo, se você vai dormir e deixa algum bagulho próximo ao seu apartamento, na manhã seguinte, quando acordar, terá o dobro daquilo. E vai sempre acumulando, mais e mais. 
— Entendi. — A garota o observou hesitante, não sabendo direito se acreditava nele. Não estava certa de que ele estivesse falando a sério. 
— Existe a Primeira Lei do Bagulho — disse Isidore. — Bagulho expulsa o não bagulho. Como a lei de Gresham sobre o dinheiro ruim. E nesses apartamentos não tem havido ninguém para combater o bagulho. 
— Então ele tomou conta de tudo completamente — a garota concluiu. E assentiu: — Agora entendo. 
— Esse seu apartamento — ele disse —, este que você escolheu, está bagulhificado demais. A gente pode reduzir o fator bagulhífico; podemos dar uma geral nos outros condaptos, como eu havia sugerido. Mas... — ele parou. 
— Mas o quê? 
— Não dá pra ganhar essa disputa. 
— Por que não? — [...] Pelo menos ela estava prestando atenção. 
— Ninguém pode vencer o bagulho — ele disse —, a não ser temporariamente e talvez em um único lugar, como em meu apartamento, onde eu meio que criei uma estase entre as pressões bagulhíficas e não bagulhíficas, por enquanto. Mas um dia eu vou morrer ou ir embora, e então o bagulho voltará a tomar conta de tudo. É um princípio universal que opera por todo o cosmo; o universo inteiro está se movendo na direção de um estado final de total e absoluta bagulhificação.




domingo, 29 de novembro de 2015

Um teaser do meu romance 'O arquivo dos sonhos perdidos'


Seguiram pela floresta por muito tempo até que alguma coisa diferente acontecesse. Yan se certificou algumas vezes de que Lavínia realmente soubesse o que estava fazendo, mas quando ela disse que estariam próximos ao rio Ämazon e que em breve avistariam uma entrada subterrânea para uma caverna e sua previsão se concretizou, o general renovou sua dose de paciência e quedou-se quieto.

Um a um, entraram na abertura vertical — onde se era possível descer por saliências encravadas na pedra, usando mãos e pés ao mesmo tempo — e seguiram em fila indiana, a única maneira possível. Yan iluminava com uma lanterna o caminho de Lavínia, que seguia sempre à frente, e Jess iluminava o chão irregular para si e para Farouk, que respirava profundamente e com gosto.

— Esse ser o cheiro da vida — dizia o acádio. — Farouk se sentir quase em casa agora. Em Akkadia não ter essa umidade toda no ar, mas Farouk se contentar assim mesmo.

Passaram por muitas bifurcações, curvas e ascensões e descidas, e Jess estava certo de que veria, a qualquer momento, caveiras de desbravadores medievais que morreram perdidos naquele túnel, mas não viu mais que pedras, escuridão e aranhas pernudas. Andaram por horas naquela trilha, e por mais de uma vez tiveram que parar para restabelecer as forças, com água, comida e pés para cima, no caso de Farouk. Por fim, quando imaginaram que já não teriam forças para enfrentar uma subida — quase uma escalada — que já lhes consumia praticamente uma hora, viram enfim a luz do dia. Mesmo Farouk pareceu grato por poder armar sua barraca e dormir, ainda que na superfície.

Acordaram (inclusive Lavínia) muito tempo depois, mas completamente refeitos. Um torpor parecia agora invadir seus pensamentos quando tentavam se lembrar do caminho feito na trilha subterrânea, e tudo parecia ter ocorrido há muito tempo atrás. Pareciam ter dormido por dias. Farouk observou que a falta das informações mais básicas de seus neuronet reforçava essa impressão, mas acabou por decidir que estava com fome demais para pensar nisso àquela hora da manhã, ou da tarde, tanto fazia.

Após se alimentarem e obedecerem às suas necessidades básicas, retomaram a marcha. Curiosamente, a trilha era bem mais nítida agora, o que de modo algum tornava mais fácil chegar ali. Caminharam por mais umas duas horas, até que a trilha fez uma virada brusca para a direita. Lavínia se certificou que todos iriam exatamente por onde ela dizia, e então solicitou que parassem. À frente dos outros três, a celta afastou a vegetação e ultrapassou-a, sumindo de vista. Antes que Yan se manifestasse, ela chamou-os. Repetiram o que ela fizera, adentraram os arbustos e não acreditaram no que viram.

Do outro lado de um abismo, Manäws, a milenar capital dos celtas tropicais, dividia uma esplendorosa queda d’água em duas com suas torres tão verdes quanto a mata ao seu redor.

*

— É maravilhosa — foi tudo o que Jess conseguiu dizer, extasiado com a visão da gigantesca capital celta.

— Agora entendo por que é praticamente impossível chegar aqui — disse Yan, vendo a simbiose perfeita da cidade com a mata.

Se as torres eram continuações das árvores ou se as árvores é que eram complementos às torres, não era certo precisar. Mesmo os tons dos materiais usados para erigir as construções eram semelhantes às cores da floresta. Se não fora a deusa Lascia da beleza a responsável por erguer aquela cidade, conforme diziam algumas lendas, ela certamente ficara orgulhosa da realização.

Por sobre cada uma das cachoeiras que emergiam à frente da cidade, duas belíssimas pontes em arco ligavam uma imensa torre vertical às outras torres marginais — as torres de vigia, explicou Lavínia. Farouk ficou um tanto cético quanto a ver figuras furtivas (como Yan, mas ele não quis dizê-lo) em meio à mata, mas a celta deu uma risadinha levemente cínica.

— Eles enxergam; não se preocupe — disse.

Jess tentou avaliar a altura do penhasco que os separava da capital, mas seu neuronet ainda nada mostrava. Percebeu o quanto era refém daquela tecnologia; sem ela, julgava ter ali uns duzentos metros de queda livre, mas não apostaria um rim naquilo. Aliás, por falar em retirada de rins, o que os “Dons” da vida não pagariam por um sistema de bloqueio assim… Não; não alguém como o Don; aquele tipo de criatura jamais teria tanto dinheiro. Certamente, nas esferas mais altas qualquer coisa desse tipo já foi bolada… Mas que dava para fazer uma grana, dava.

— Cento e quarenta e quatro metros — disse Lavínia, acompanhando Jess no olhar ao penhasco. — Te conheço, Jess. Aposto que era nisso que estava pensando.

Por um momento, Jess voltou a ver a Lavínia urbana por trás daquela Lavínia céltica que se instalara nela nos últimos dias. Ele riu.

— Aí é que você se engana — disse.

Lavínia apenas sorriu de volta, e chamou-os a prosseguir.

Os quatro acompanharam a trilha que margeava o penhasco, seguindo cada curva do rio que lá embaixo fazia o que os rios fazem de melhor: cavar a pedra por séculos e séculos, abrindo fendas, cânions e vales, até o que os homens os destruam. Logo se aproximaram de outra ponte em arco, que ligava duas extremidades mais próximas do desfiladeiro. Um alto vigia celta se aproximou, e os três homens ficaram admirados com sua indumentária. Usava uma túnica verde-folha que ia até os joelhos; botas longas e escuras e uma proteção sem mangas de couro claro. Tinha ainda um elmo alongado, donde escorria seu cabelo preto (avermelhado?) e liso atrás e preso em duas tranças grossas na frente, e um grosso colar de ouro. Como os celtas abominavam o uso das armas de fogo, carregava uma espada longa numa bainha de couro preto.

Bore da, Läni — disse ele, abraçando Lavínia polidamente. Saudou os outros com um aceno de cabeça. — Disseram-me que havia voltado; quis ver com meus próprios olhos — acrescentou no idioma comum.

Esse costume celta deveria ser de praxe em todo o resto do mundo “civilizado”, pensou Farouk, que já lera sobre a tradição de jamais esconder o assunto de quem estivesse ouvindo.

Bore da, Mënon — disse Lavínia. — Voltei, mas por pouco tempo. Preciso ver Juno.

— Depois que você ligou, ele não saiu mais — riu Mënon. — Precisa ver a alegria quando me disse. Mas vamos, são todos convidados hoje. Gaia bendithia ei ddyfodiad!*



* Em céltico manawar, Gaia abençoa sua chegada.

sábado, 28 de novembro de 2015

Mistborn - Nascidos das brumas vol. 1: O Império Final, de Brandon Sanderson


Pra começar logo com os dois pés no peito: de todas as muitas fantasias que eu li, Mistborn agora só perde para O senhor dos anéis e As crônicas de gelo e fogo. Pronto. Leia o restante do post ciente de que você vai encontrar uma rasgação de seda só.


Tudo nesse livro é foda. Os personagens do grupo, a trama com suas viradas, o sistema de magia, o mundo, o vilão, os coadjuvantes, o tom do livro, tudo mesmo. Não consegui encontrar uma falha, uma inconsistência, um algo que poderia ser melhorado. Li, inclusive, esse livraço de 600 e tantas páginas mais rápido do que eu li muitos de 200 ou menos. Com certeza Brandon Sanderson é tão foda quanto o Thiago e a Melanie do podcast Agentes do LIVRO tentam nos fazer acreditar. Embora não haja um "estilo de escrita" que o diferencie tanto — como é com Saramago, Gaiman, Victor Hugo —, Sanderson é um mestre da narrativa. Ele escreve de maneira muito fluida, e conseguiu, pelo menos nessa obra, construir uma história em que há coisas sempre acontecendo, num ritmo gostoso, sem atropelos e sem "barriga".

A trama de Mistborn - Nascidos da bruma vol. 1: O Império Final é até simples. (Antes, que nome grande hein Leya? Não podia deixar só o Mistborn vol. 1: O Império Final não, tinha que traduzir? Ou até mesmo deixar só o Nascidos das brumas...? Enfim.)  Ao contrário do que geralmente acontece nas histórias de fantasia, onde o herói da profecia vence o mal, aqui temos o contrário. O herói perdeu, e o mal tomou conta do mundo. E isso já há 1.000 anos. Em decorrência disso, surgiu uma sociedade extremamente dividida, entre os ricos nobres e os pobres skaa — e é desse segundo grupo que vem a revolta, claro. Alguns deles — a incrível Vin, o cativante Kelsier, o correto Yeden, o singular Brisa, o poderoso Hammond e o taciturno Trevo — se unem em um plano incrivelmente estúpido para mudar o sistema.

Apesar de ser o primeiro livro de uma trilogia, é, de certa forma, uma história fechada. Se o leitor quiser, nem precisa procurar o resto; o final é altamente satisfatório. Contudo, duvido que qualquer um que leia O Império Final pare por aí mesmo — o negócio é muito bom!

Só não ganhou 6 estrelas no Skoob porque só vai até 5 :)

Vin e Kelsier, por Shilesque

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Um trecho marcante de Lúcio Manfredi


— Me admira muito um crânio que nem você não saber quem é Chuang-Tzu. Até eu sei quem é Chuang-Tzu. 
E como o momento requer uma pausa dramática e essa é uma concessão que ele não se importa de fazer pelo bem da cena, é só no final do parágrafo que Max arremata: 
— Só não sei muito bem quem sou eu. 
No ato se arrepende, primeiro porque já disse isso e a repetição arruína a punch line, e segundo porque um fiadaputa oportunista tenta lhe roubar a cena, se aproveita da pausa para provocar um ruído no andar de cima e se tem uma coisa que Max não precisa nesta casa estranha é um ruído no andar de cima, inda mais um ruído que soa como um índio sussurrando acanga tatá. Max garra na arma e vai investigar, sem parar para refletir que a estranheza maior do ruído é que, sentado na cozinha do andar de baixo, ele tenha conseguido ouvir uma palavra sussurrada no andar de cima.
Lúcio Manfredi - Encruzilhada



domingo, 25 de outubro de 2015

Sandman: Os caçadores de sonhos, de Neil Gaiman & Yoshitaka Amano


É engraçado o que a leitura de Gaiman faz comigo. É daquelas leituras que te deixam sentado, em silêncio, olhando para o nada, sem pensar, apenas sentindo. Posso afirmar, sem medo, que ele é o meu escritor favorito — e essa obra, Sandman: Os caçadores de sonhos, é uma realização — em toda a profundidade que essa palavra traz — dele em parceira com o meu desenhista favorito: Yoshitaka Amano.

Para quem não o conhece, ele é o ilustrador oficial da série Final fantasy — que também é a minha franquia preferida de videogames. Quando descobri essa obra na livraria, comprei-a sem pensar duas vezes. Para melhorar ainda mais, era barata.

Eu só não imaginava que a história me emocionaria tanto.


O texto de Gaiman é aquele negócio, né. Ele não exagera, não se demora, não enrola, não floreia — mas também não é cru. Usa as palavras necessárias para passar exatamente o que ele quer passar, e todas elas, na medida perfeita — e os desenhos de Amano são exatamente assim, também; têm o nível de detalhes na medida exata que precisam ter; podem ser uma profusão de traços e detalhes minúsculos ou um mar de cores e minimalismo que incomoda e deleita. A união de ambos — texto e traços — é imprescindível para a perfeição dessa obra.

E ela é perfeita. Não preciso explicá-la mais do que dizer que ela é uma ode ao amor. Alguns podem dizer que é apenas um conto, ou uma fábula, mas, na minha concepção, ela vai muito além disso. Ela é verdadeiramente um recorte dos sonhos. Gaiman e Amano trabalham com o está além — com o que está acima — do mundo real. Talvez eles trabalhem com o verdadeiro mundo real...

Mas o que sei é que eles trabalham com o que mais se aproxima do que eu realmente sou.

"Mas o que fizeram um pelo outro há de ser lembrado, e pode-se conjecturar que, neste momento, eles fizeram amor. Ou sonharam ter feito.

Quem sabe.

Quando encerraram as despedidas, o Rei dos Sonhos juntou-se a eles novamente.

Agora tudo será como devia ser — ele disse, e o monge viu-se observando a raposa de dentro do espelho.

— Eu teria dado a minha vida por você — ela sussurrou, triste.

— Viva — disse o monge."


domingo, 11 de outubro de 2015

Alif, o invisível, de G Willow Wilson


Ler Alif, o invisível foi experienciar uma completa reversão de preconceitos. Não sei bem por quê, mas desde que foi lançado, o vi nas prateleiras das livrarias e não me motivei muito a comprá-lo (ajudou o preço em que os livros estão hoje em dia, nunca fugindo do intervalo R$ 30-50 para romances de tamanho tradicional). Encontrá-lo novo num sebo a R$ 19,90 ajudou a quebrar o bloqueio. Outra coisa que ajudou (e é uma coisa completamente besta, eu sei) foi a fonte em que o livro foi composto pela Rocco — a Centaur, a fonte em que escrevo e a que mais gosto. Bendita Centaur, hehe, porque li um dos livros que mais gostei esse ano.

Como não gosto de "resenha release", vou enumerar aspectos do livro que gostei — a sinopse o leitor pode achar no link para o Skoob lá em cima. Primeiramente, os personagens.

Alif, o personagem principal, é um produto criado pelo seu ambiente (o Oriente Médio) — ainda que subvertendo-o. Um hacker revolucionista, mas pode-se dizer que uma pessoa comum, mediana. Preconceituoso como boa parte de seus conterrâneos, apesar de sua inteligência. Como se percebe numa parte do livro, alguém que anseia pelas mudanças, mas, quando elas vêm, percebe que até preferia continuar na mesmice, meramente pelo medo do novo. Um carinha irritante, mas muito bem construído. Dina, sua amiga, é praticamente o oposto dele — apesar de ser extremamente religiosa (optando por um caminho tradicional demais até mesmo para os seguidores normais do Islam), é mais mente aberta para muitas coisas do que Alif. Vikram é um cara engraçadíssimo, também muito bem construído, e, não sei por quê, imaginei ele com a cara do Johnny Depp o tempo todo. O xeque Bilah é o exemplo do que um líder religioso deveria ser: segue sua religião interpretando-a e adaptando-a aos tempos modernos, e não com um cabresto. Suas reflexões são incríveis. O outro hacker, NewQuarter, vive os conflitos entre sua condição social e suas aspirações — e aparece na hora certa, hehe. A convertida, que só é chamada assim, nos apresenta as dificuldades em se adaptar e se incluir em uma cultura tão diferente da sua (seria um reflexo do que a própria autora enfrentou?). Agora, sem dúvida, a personagem que mais dá raiva na gente é a talzinha da Intisar; ô menina escrota! Suas motivações, contudo, são perfeitamente compreensíveis... infelizmente. Os outros personagens que ajudam no decorrer da história são mais planos, mas nem por isso mal construídos, e isso não chega a incomodar.

Gwendolyn Willow Wilson escreve muito bem — e confesso que, em muitos momentos, me lembrei da escrita de Neil Gaiman, e isso só pode o maior dos elogios. Como dito no episódio 83 d'O Drone Saltitante, a obra tem um quê de Deuses americanos — que muito me agradou. A narrativa é fluida e mescla com perfeição momentos mais light com pesadas críticas, tanto à política, às divisões sociais, ao preconceito e ao extremismo religioso. Wilson apresenta os aspectos culturais dos árabes com maestria, e conseguimos até mesmo compreender atitudes religiosas que antes poderíamos simplesmente rechaçar, simplesmente por sua completa diferença em relação ao que consideramos cotidiano e "normal" por aqui. A trama pode até ser considerada simples — mas você só percebe isso ao final do livro. No começo, é difícil saber o que está realmente acontecendo — e isso é excelente, porque nos transporta perfeitamente para o papel de Alif, que vê sua vida se torcer e quebrar de formas verdadeiramente nauseantes, ao perceber que, por trás do véu da realidade, existem muitas coisas a mais do que podemos ver... ou do que queremos ver? Confesso que, como não gosto de ler nem resenhas nem sinopses antes de ler os livros, até mesmo o gênero da história tive dificuldade em precisar, no começo. Mais um ponto para a autora por isso — e são tantos pontos positivos que só lendo mesmo para apreendê-los todos.

Alif, o invisível é uma fantasia urbana respeitável, aventuresca e com toques de ficção científica. Provavelmente vai ser a minha escolha de "surpresa do ano" na retrospectiva de 2015; vai ser difícil achar outro livro, ainda esse ano, que destrua meus preconceitos de forma tão devastadora quanto esse o fez. Todo tipo de preconceitos. Você, leitor, também devia rever os seus.

Você só vai entender por quê essa imagem está aqui quando ler o livro :)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um trecho marcante de G Willow Wilson


A convertida ergueu uma sobrancelha, cética.
— Já esteve nos Estados Unidos?
— Em que sentido?
— Existe mais de um?
— Naturalmente.
— Meu Deus, você é ridículo. — Segurando a saia comprida, a convertida passou à frente de Vikram, andando pela rua com um passo decidido. Vikram riu.
— Eu não pretendia ofender sua vaidade, minha cara — garantiu ele. — Ande mais devagar. Conheço tão poucos ocidentais que esqueci com suas consciências são melindrosas.
— Sabe quantas palavras eu conheço para 'estrangeira'? — perguntou a convertida. Ela não se virou para falar; sua voz parecia flutuar de trás da cabeça envolta em seda. — Muitas. Ajnabi. Ferenghi. Khawagga. Gori. Pardesi. Já fui chamada de todas elas. Não são palavras gentis, independentemente do que seu povo alegue.
— Espere um minuto, quem é esse seu povo? — disse Alif.
— Orientais. Não ocidentais. Como quiserem chamar a si mesmos. Não importa as concessões que façamos... Se nos vestimos respeitosamente, aprendemos a língua, seguimos todas as regras insanas sobre quando falar, como e com quem. Eu até adotei sua religião... Adotei por livre e espontânea vontade, pensando que fazia algo nobre e correto. Mas não é o bastante. Vocês sempre criticam cada pensamento e opinião que sai de minha boca, mesmo quando falo da merda do meu país. Sempre serei uma estrangeira.

G Willow Wilson - Alif: O invisível

G Willow Wilson; foto de Amber French.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Imaginários vol. 3, organizado por Erick Santos Cardoso


O volume 3 foi o primeiro das incríveis coletâneas Imaginários da editora Draco que consegui ler. Como os outros volumes, são contos de fantasia, ficção científica e terror, sempre de autores nacionais  como é o procedimento dessa editora. Achei o resultado desse volume muito positivo, e, no geral, fui surpreendido! Assim, sem mais enrolação, vamos às (breves) análises dos contos.



1.º: A torre das almas, de Eduardo Spohr.
Um conto passado no universo ficcional de A batalha do Apocalipse, do autor. Mostra uma aventura curta, com a solução de um "caso policial" pelos celestiais infiltrados no mundo físico  mas sem emoções e sem fatos intrigantes. Como esse volume 3 é de 2010, espero que o autor tenha melhorado também sua escrita depois disso, porque tem muito tell e pouco show (da pérola estilística "show; don't tell"  mostre; não conte). Dava para ter contado tudo o que ele queria contar sem tanta explicação gratuita, mas... De qualquer forma, serve como introdução ao seu universo. E para mim já foi o suficiente.
Nota 2 de 5.

2.º: Um breve relato da ascensão do Papa Alexandre IX, de Marcelo F Assami.
Um conto interessante. Bom. A narrativa de uma sucessão papal nada convencional (ou seria...?), com um algo a mais. O escritor mostra bastante ao invés de contar, e isso é ótimo. Dá a sensação de que estamos deixando passar algo despercebido. Interessante também ele usar os sobrenomes de escritores (inclusive o dele próprio) para seus personagens; apesar disso ser bastante feito por aí (até eu já fiz), sempre é legal.
Nota 3 de 5.

3.º: As noivas brancas, de Rober Pinheiro.
Um conto muito legal. Uma aventura de resgate, num cenário de ficção científica, com toques de psicodelia engraçadíssimos. Vale ressaltar que Rober escreve muito bem.
Nota 3 de 5.

4.º: Bonifrate, de Douglas MCT.
Conto de ficção científica muito bom! O autor conseguiu aqui, nessa releitura de um conto popular, criar um mundo muito mais interessante do que o da outra outra que li dele, Necrópolis. Lembrei-me de um filme de que gostei muito  o Inteligência artificial , então isso deve ter ajudado na apreciação da obra. Muito bem escrito também.
Nota 4 de 5.

5.º: Dies irae, de Lidia Zuin.
Conto de ficção científica regado a drogas e perseguições. Escrita muito boa; uma protagonista sem chance de redenção ou ajuda possível; um final, pelo menos para mim, enigmático  e, não sei bem dizer por quê, mas histórias sobre a decadência humana são sempre atrativas.
Nota 3 de 5.

6.º: Vida e morte do último astro pornô da Terra, de Marcelo Galvão.
Conto compacto e excelente! Criativo na forma e com uma virada interessante no final; muito bem escrito e com um tema mais profundo do que aparenta. Apesar do nome... suspeito, digamos, é o melhor conto da coletânea.
Nota 5 de 5.

7.º: Corre, João, corre, de Cirilo S Lemos.
No começo, dá de se pensar onde estará o elemento fantástico desse conto, mas tudo muda do meio para o fim, quando a história dá uma guinada e o ritmo, que já estava agitado, se torna frenético e agoniante. Ótimo. Não podia ser diferente; quando vi que seria uma história desse autor, já imaginava que não ia me decepcionar.
Nota 4 de 5.

8.º: Uma segunda opinião, de Fernando Santos de Oliveira.
Um conto de vingança estudantil, com um "quê" de Carrie, a estranha. A escrita é, claramente, de um autor iniciante (tanto que sua biografia ao fim do livro não cita outros títulos), e o tema não me prendeu; achei até meio bobinho, inocente. Esse é o mais fraco da coletânea.
Nota 2 de 5, porque o final foi interessante e diferente do que esperava.

9.º: Maria e a fada, de Ana Cristina Rodrigues.
Conto interessante, bem escrito, com uma ambientação medieval que me agradou bastante. Tem uma aura mágica e o jeito da autora contar a história ajudou muito na trama relativamente simples.
Nota 3 de 5.

10.º: O primmeiro contacto, de Fábio Fernandes.
Conto muito criativo na forma  o autor escreve como não fosse ele o autor do conto; como se este tivesse sido encontrado num sebo, escrito por um suposto Dr. Eleutherio Penna Filho, pseudônimo de um artista desconhecido, no ano de 1929 , mas nem tanto na trama. Ok, o conto tem que ser encarado como se tivesse realmente sido escrito antigamente, então a trama está adequada  até mesmo a "inocência" relativa às viagens espaciais é justa, porque faltariam ainda décadas para o início das aventuras espaciais da humanidade. A ortografia também simula a escrita antiga; no entanto... as contruções frasais não convencem. Não sei dizer por quê, mas o... linguajar?... estilo?... algo me incomodou. Talvez seja o estilo mesmo; os "cortes" da cena parecem muito modernos, muito dinâmicos. Antigamente as narrativas eram mais lentas, mais descritivas, menos cinematográficas... Enfim; de qualquer forma, é um conto muito bom para o que propõe. Usa personagens históricos (outro recurso que também acredito ser mais moderno do que clássico), mas acho que acabou faltando um pouco de emoção na trama.
Nota 3 de 5.

No final, posso dizer com tranquilidade que a coletânea vale o que custa — e deixa o leitor com vontade de ler os outros volumes. Acho que vale um 3,5 de 5 de nota final :)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Algumas observações sobre a criação literária


Um grande escritor, Raymond Chandler, do qual infelizmente li somente uma obra — A dama do lago —, fez uma observação muito interessante (e muito válida) sobre os detalhes que verdadeiramente interessam e que prendem a atenção do leitor:
"Minha teoria é de que os leitores apenas pensam que o que lhes interessa é a ação. Na verdade, embora não saibam, ligam muito pouco para isto. O que os atrai, e me atrai, é a criação de emoção através de descrição e diálogo. O que eles lembram, e que não sai de sua cabeça, não é, por exemplo, que um homem foi assassinado, mas que no momento de ser morto ele estava tentando pegar um clip na superfície polida de sua mesa, e o clip escapulia dos seus dedos, de modo que havia uma contração no seu rosto e sua boca estava entreaberta numa espécie de sorriso tenso, e a última coisa que passava pela sua cabeça naquele instante era que iria morrer. Ele nem sequer escutou alguém batendo à porta. O maldito clip continuava escapulindo dos seus dedos e ele teimava em não querer empurrá-lo até a borda para fazê-lo cair sobre sua mão aberta."

O escritor Braulio Tavares (do qual comprei por esses dias duas obras  A espinha dorsal da memória e Mundo fantasmo —, mas que ainda não li) também teceu considerações acerca desse tema:
"Esses detalhes circunstanciais tornam uma cena algo único, e portanto algo mais vívido e mais verdadeiro. Leitor burro é inseguro, precisa encontrar a todo instante uma confirmação do que já sabe  se o cara que vai morrer é um milionário, por exemplo, ele não pode estar pegando um clip, tem que estar contando dinheiro, ou algo assim. O leitor inteligente sabe que muitos momentos de nossa vida se concentram assim, em detalhes totalmente insignificantes, que passam a significar não pelo que são, mas pelo foco que nossa atenção lhes concede."
"Sem contar que muitos gênios em potencial não comungam dessas certezas. Criam, mas não creem; criam massacrados pela descrença em si próprios. Kafka, nos seus Aforismos, diz: 'Antes eu não entendia por que não recebia nenhuma resposta à minha pergunta, hoje não entendo como podia acreditar que era capaz de perguntar. Mas realmente não acreditava, só perguntava'. Hoje em dia, numa época de Egos bombados a poder de esteroides, duvidamos que alguém possa criar uma obra de peso baseada na dúvida e na insegurança, mas não há dúvida de que muitos criaram assim, criaram quase a despeito de si próprios."

Essa segunda citação dele é muito importante. Temos muitos escritores atuais que se acreditam a salvação da lavoura  ou pelo menos se acreditam bons o bastante para não precisarem de uma edição dura e uma boa dose de autocrítica. Que escrevem com certeza, ao invés de, como disse Tavares, usarem a dúvida como combustível para suas criações.

Creation, arte de Justin R. Christenbery

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A bússola de ouro, de Philip Pullman


Que surpresa esse A bússola de ouro! De verdade! Imaginava que seria bom, li boas críticas, percebi a aura que cerca a obra... mas, de forma alguma, esperava um conteúdo tão original, brutal e emocional. (Cacofonia manda lembranças.)

Engana-se quem pensa que é um livro para crianças. Ainda que seja um livro com uma como protagonista — e que protagonista! —, críticas à Igreja e ao extremismo religioso, maxilares sendo arrancados com socos deixando a língua pendurada e pessoas comendo órgãos crus de animais recém-abatidos para não morrerem de fome não se encaixam na minha definição de livro infantil.

Além da surpresa com a trama, não dá para não gostar de Lyra, Pantalaimon — seu dimon, algo como sua alma em forma de um animal que a segue (todos os humanos nesse universo paralelo têm um) — e de Iorek Byrnison. Porra, ele é um urso polar de armadura! E que fala!

A trama também apresenta muitas reviravoltas — como toda boa aventura —, mas é dependente da continuação. Gosto quando o primeiro livro de uma série encerra a possibilidade de ser lido sozinho, mas aqui isso nem me incomoda. Que venha A faca sutil, o livro 2 da trilogia Fronteiras do universo — e que seja tão bom quanto esse...!

Porque, por enquanto, o senhor Felipe Pãodeforma está de parabéns!

Lyra, a menina; Pantalaimon, o dimon em seu colo; e Iorek Byrnison, o urso.


Nota 5 de 5!

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Recortes urbanos


Alguns recortes urbanos, fotografados em 2009/2010.


Uberaba, MG

Sorocaba, SP

Sorocaba, SP

São Paulo, SP

Uberaba, MG

Aparecida, SP

domingo, 13 de setembro de 2015

Por que o nome do autor também vem na capa? (ou A importância da Ficção Científica)


(Originalmente publicado no Papo de Cafeteria.)

Certamente, falando sobre livros, você já ouviu a célebre — só que não — frase: “Mas isso aí é ficção científica...” (e complementada por N colocações preconceituosas e com a pior ênfase possível no termo “isso aí”). Estou certo que, dentre todos os seus conjuntos de reações prováveis, boa parte delas envolveu um nó nas tripas — e, cá entre nós, isso é perfeitamente compreensível. É quase como ouvir falar mal da mãe, para nós, amantes do gênero. E é por isso que estamos aqui, sentados nessa mesa, degustando nossos cafés, não é? Aliás, vai um gole aí de cappuccino? Não? Melhor para mim, hehe. Talvez, depois desse papo, você possa ter uma coisa (ou duas) a dizer quando ouvir esse tipo de... abominação. Assim sendo, para início de conversa, posso sugerir uma questão? Pense nisso, e me responda:

Qual é, afinal de contas, a importância da Ficção Científica na literatura?

Arte de Fahrenheit 451, por aspius

Pensou? Então considere, agora, uma questão maior ainda: Qual é a importância de qualquer coisa? Essa segunda questão complicou o raciocínio? Qual é a importância da sua casa para um morador do Vietnam? E qual é a importância, para você, do vaso de cerâmica que esse vietnamita decorou com pintura? “Importância” é subjetiva ou não? Ou eu já estou elucubrando — especulando, filosofando, matutando — demais? Elucubrar é desimportante? Ou estimula o raciocínio? Quem pensa demais acaba por ficar louco, ou por impulsionar as ciências? (Desconsidere a possibilidade de ambas as coisas ocorrerem ao mesmo tempo.) Há alguma resposta definitiva ou objetiva a qualquer uma dessas questões?

O tipo de pessoa que levanta aquela inominável questão do início do papo frequentemente também diz que tais obras são repletas de “fantasias” e “coisas impossíveis”, e que, definitivamente, não podem ser comparadas à importância das obras dos mestres da literatura. Algo me diz que esses mestres não pensariam assim, mas não entremos nesse mérito; o caso é que, se essas pessoas se atêm somente a esses aspectos dessas obras... bem, elas devem absorver a mesma taxa de conteúdo de Dan Brown, Paulo Coelho, Liev Tolstói e José Saramago, nivelada por baixo. (A definição de “baixo", neste caso, deixo para você.)

A questão é: não seriam essas “fantasias” e “impossibilidades” justamente as elucubrações de autores que pensam a fundo questões científicas? E estou falando tanto dos átomos e da física quanto das ciências sociais. Que criam mundos futuristas, viagens e linhas temporais, distopias e falsas utopias, evoluções e manipulações genéticas incontroláveis? Em que sentido essas elucubrações divergem das dos autores “realistas”, que usam como matéria prima apenas o que se refere ao presente ou ao passado de nosso mundo? Essa questão eu me imagino ser capaz de responder! (Alguma eu tinha de ser, não é?) Os autores realistas — em sua maior parte — diferem dos autores de Ficção Científica — em sua maior parte — e eu nem estou falando da Fantasia ainda — no que tange à natureza de suas elucubrações!

O Big Brother, de 1984, está vendo você.
Qualquer semelhança com o mundo real é mera coincidência.

Enquanto Arthur Clarke, Isaac Asimov e Ray Bradbury — e também os nossos, por que não?, Luiz Bras, Alexey Dodsworth e Carlos Orsi — elucubram a respeito do porvir, do que pode ser feito/restar/não restar de nossa civilização quando certas tecnologias ou ciências forem desenvolvidas ao extremo, os escritores como Graciliano Ramos, J. M. Coetzee, Marguerite Duras e Victor Hugo elucubram a respeito do que veem às suas voltas, sobre o nosso mundo real, sobre todas as injustiças e lutas individuais que exemplificam e caracterizam nossa sociedade. É indubitável que eles nos fazem rever com mais clareza nosso caminho sobre as pedras desse planeta — mas quais deles? O primeiro grupo, o dos sonhadores de mundos, ou o segundo, dos analisadores do mundo? Ha!, essa resposta eu também tenho: ambos! E qual é a importância da literatura de ambos para aquela pessoa do início, que está “cagando e andando” para o vietnamita que pinta cerâmica? Perceberam que essa resposta não é, de fato, importante? E tão desimportante quanto a pessoa que a questionou.

Eu sugiro, a título de conclusão, uma resposta talvez simples, e talvez inconclusiva como todas as respostas devem, na minha opinião, ser, e você pode concordar ou não:

As obras de ficção científica só são importantes na medida daqueles que as escreveram — exatamente como as obras e os escritores ditos realistas. As ideias são o que importa! A tríade escritor/ideia/obra talvez seja indissociável, e por isso ouso dizer que, se Ray Bradbury tivesse escrito, ao invés de seu Fahrenheit 451 o livro João e as couves de Bruxelas, contendo as mesmas ideias que o seu duplo de outra realidade, este é que seria importante. Bradbury é o responsável por aquilo, e sem ele, os livros não atingiriam seus 451° F e não nos trariam tantas reflexões a respeito de nosso próprio mundo, assim como sem Asimov a Eternidade não se ergueria sozinha, e ambas as obras não existiriam para nos fazer refletir sobre os erros de se tentar manipular e controlar a tudo e a todos. Assim, enquanto os escritores “realistas” nos mostram o que há de errado — e certo também, por que não? — com o nosso mundo, os escritores do “fantástico” nos mostram tudo aquilo que ele pode — ou não pode — se tornar, se nos descuidarmos ou se cuidarmos demais.

Arte inspirada em O planeta dos macacospor Marko Manev.

É claro que as estórias também têm sua cota de importância no peso final das obras; sem entretenimento, elas simplesmente não são lidas — mas estou certo de que é por suas ideias que elas, afinal, são e serão lembradas. Por aquelas ideias, surgidas das indagações, das elucubrações, das discussões regadas a café. Por aquelas ideias, de todos aqueles que elucubraram o suficiente para gravar magicamente nas páginas de um livro aspectos preocupantes das realidades presentes, passadas ou futuras, que já ou que nunca aconteceram nem acontecerão, mas que tiveram a coragem de pensar.

Pelas ideias daqueles que elucubraram.

sábado, 12 de setembro de 2015

Uma pequena observação sobre a cegueira religiosa


A observação é simples: Como é triste e desesperador perceber que, desde 1862 — ou seja, a meros cento e cinquenta e três anos atrás —, quando foi publicada a obra Os miseráveis, do genial Victor Hugo, as discussões são ainda as mesmas, e a mentalidade de tanta gente não evoluiu sequer um milionésimo de uma fração de uma medida imaginária qualquer.

Segue a prova, do Livro III: No ano de 1817, dessa obra:

"Duputryen e Récamier discutiam no anfiteatro da Escola de Medicina, e ameaçavam esmurrar-se, por causa da divindade de Jesus Cristo. Cuvier, um olho no Gênesis e outro na natureza, esforçava-se por agradar à reação carola, pondo os fósseis de acordo com os textos bíblicos e fazendo com que os mastodontes lisonjeassem Moisés."

Ultimamente esse tema tem me incomodado tanto que vou ter que escrever qualquer coisa sobre isso. Resta torcer para que o Estado Islâmico ou os "Gladiadores do Altar" ignorem os escritores insignificantes. 


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um trecho marcante de Machado de Assis


Ocorre-me uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo uma correção de estilo. Cuido haver dito, no capítulo XIV, que Marcela morria de amores pelo Xavier. Não morria; vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer; assim o afirmam todos os joalheiros deste mundo, gente muito vista na gramática. Bons joalheiros, o que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal comércio dos corações. Esta é a reflexão imoral que eu pretendia fazer, a qual é ainda mais obscura do que imoral, porque não se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bela testa do mundo não fica menos bela, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos bela, nem menos amada.

Machado de Assis - Memórias postumas de Brás Cubas, 1881


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Um trecho marcante de Alan Dean Foster


— Conheci seu pai quando ele era apenas um garoto, Luke. Ele era um grande piloto. Você vai se sair bem. Se tiver metade da pontaria de seu pai, fará um ótimo trabalho. 
— Obrigado, senhor. Vou tentar.
— Não há muita diferença, em termos de controle, entre um X-wing T-65 — o Líder Azul completou —, e um skyhooper. — Seu sorriso se tornou um tanto cruel. — Exceto que levam cargas de natureza um tanto diferentes. 
Ele os deixou e se apressou em direção à sua própria nave. Luke tinha centenas de perguntas, mas não havia tempo para fazer nenhuma. 
— Preciso embarcar em minha nave, Luke. Escute, você me conta suas histórias quando voltarmos. Certo?
— Certo. Eu disse a você que um dia chegava até aqui, Biggs.
— Você disse. — Seu amigo se dirigia a um grupo de caças, ajustando seu uniforme de voo. — Vai ser como nos velhos tempos, Luke. Somos dois cometas que ninguém consegue parar!
Luke sorriu. Eles costumavam usar esse grito de guerra quando pilotavam naves estelares feitas de dunas de areia e troncos caídos de árvores nas ruas de Anchorhead... anos e anos atrás.

Alan Dean Foster (publicado como George Lucas) - Star wars ep. IV: Uma nova esperança



terça-feira, 4 de agosto de 2015

Um trecho marcante de Carl Sagan


Sentia-se à vontade descrevendo-lhe seus devaneios, fragmentos de lembranças, problemas de infância. E Ken não só se interessava como se mostrava fascinado. Fazia perguntas sobre sua infância durante horas. Suas perguntas eram sempre diretas, às vezes minuciosas, mas invariavelmente delicadas. Ellie começou a entender por que os namorados falam um ao outro em tatibitate. Essa era a única situação socialmente aceitável em que a criança que existe dentro do adulto tem a permissão de se manifestar. Se tanto o bebê como a criança, o adolescente e o adulto encontram personalidades compatíveis no ser amado, há uma possibilidade real de que todas essas subpersonas fiquem felizes. O amor põe fim à longa solidão de cada uma delas. Talvez a profundidade do amor possa ser mensurada pelo número de diferentes egos envolvidos ativamente num determinado relacionamento.

Carl Sagan - Contato


Dentre todas as coisas que eu poderia esperar ler em Contato, esse tipo de tema certamente não era uma delas. Isso só prova o quão genial era o autor.


sábado, 1 de agosto de 2015

Mas é realismo mágico ou fantasia?

(Originalmente publicado no Papo de Cafeteria, republicado no Monomaníacos, discutido no CabulosoCast #122 - A (polêmica) literatura fantástica nacional, e gerou minha participação no CabulosoCast #149 - Realismo mágico)

Cena do filme A estrada, baseado no livro de Cormac McCarthy.

Existe muita confusão sobre o tal do gênero conhecido como realismo mágico. Como se pode ser realista quando se fala de alguma coisa mágica? Seria esse um gênero mainstream disfarçado de fantasia para vender mais, ou um jeito que a fantasia deu de se enfiar no meio mainstream? No que ele difere da ficção fantástica tradicional?

É aceito que o realismo mágico tenha surgido na América Latina com escritores como Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar e outros — mas isso se considerarmos estritamente o gênero de prosa produzida por esses senhores. Contudo, existem muitos outros escritores — inclusive fora da América Latina — que fazem obras que, nitidamente, bebem das mesmas fontes desses pioneiros; seriam, então, assim, excluídos do “gênero” por não estarem na mesma sombra geográfica? Mas, espere (você pode se perguntar); se não for assim, como sempre me foi dito, como eu vou identificar o que é realismo mágico e o que é ficção fantástica, ou fantasia? Bom, para começar a polêmica, já começo defendendo de que tudo é ficção fantástica. Daí podemos subdividir em fantasia, ficção científica, realismo mágico, terror, new weird… E então chegamos ao cerne: qual a diferença entre realismo mágico e fantasia, e como identificá-los?

Comecemos pelo mais fácil — a fantasia. O que é uma obra de fantasia? Parece óbvio dizer que O senhor dos anéis do Tolkien é fantasia, assim como As crônicas de gelo e fogo do George Martin. Temos dragões, magia e mortos-vivos em ambos. A Torre Negra do Stephen King também; temos portais dimensionais, ora! Em Deuses americanos do Neil Gaiman temos, bem, deuses!, assim como em O inimigo do mundo do Leonel Caldela. Até aqui tudo bem. Se não houvesse esses elementos, esses mundos se desfigurariam completamente. Não há Terra Média sem magia, sem magos e sem orcs; não há Arton sem elfos, deuses e kobolds. A América de Deuses americanos é moldada pelo “mundo atrás do palco”, e o mundo d’O pistoleiro é uma versão do nosso. Retirando-se o Um Anel, Gandalf ou Sauron, ainda sobram inúmeros elementos fantásticos em O senhor dos anéis, pois essa obra é feita disso. Do mesmo modo, o mundo d’A Torre Negra seguiu adiante, com ou sem Roland Deschain. E Arton sem a Tormenta continua sendo Arton. Agora… poderíamos dizer que o mesmo acontece em obras como A estrada do Cormac McCarthy, Kafka à beira-mar do Haruki Murakami, A metamorfose do Franz Kafka, Memórias póstumas de Brás Cubas do Machado de Assis, A menina que roubava livros do Markus Zusak…? (Perceberam que não mencionei nenhum dos autores latinos supracitados, não é?)

É nítido e evidente que os elementos fantásticos estão presentes nessas obras. A estrada fala sobre um mundo pós-apocalíptico; em Kafka à beira-mar temos um senhor que fala com gatos (e eles se entendem mutuamente, fique claro) e outras coisinhas mais; o protagonista de A metamorfose vira um inseto gigante; e em Memórias póstumas de Brás Cubas e A menina que roubava livros, quem narra as estórias são, respectivamente, um morto e a Morte. Contudo, eu também pergunto: Sem esses elementos fantásticos, as histórias perdem suas importâncias? Vamos lá, a resposta é fácil: não. A estrada não é sobre o mundo apocalíptico; é sobre o amor de um pai pelo filho na adversidade extrema. Em qualquer outro cenário semelhante aquilo funcionaria tão bem quanto. Perdidos no deserto de Gobbi ou no Atacama, em Marte ou no Ártico. Memórias póstumas… e A menina… têm somente narradores incomuns, o que torna suas estórias únicas, mas elas são perfeitamente possíveis em nosso mundo real. A metamorfose é sobre a melancolia, sobre o sofrimento de um ser humano que não vê sua utilidade no mundo, e Kafka à beira-mar tem em seus elementos fantásticos apenas adornos de um algo maior. E assim também é com A revolução dos bichos do George Orwell, Ensaio sobre a cegueira do José Saramago, Horizonte perdido do James Hilton, Incidente em Antares do Érico Veríssimo…

Então, essa definição é a final? Claro que não. Muitos estudiosos — ou chatos, como preferirem — não admitem que o realismo mágico seja mais do que aquela literatura de nicho feita na América Latina. Isso, contudo, a meu ver, seria semelhante a dizer que não há fantasia fora da Europa ou ficção científica fora da literatura escrita em inglês.

É quase como dizer que Star wars é fantasia e não ficção científica, mesmo tendo uma explicação para a Força e alienígenas serem aceitos na ficção científica de O fim da infância do Arthur C. Clarke e não em… Bom, mas acho que esse assunto terá que ficar para um próximo artigo.

Ilustração para o livro A Torre Negra vol. 1: O pistoleiro.

domingo, 26 de julho de 2015

Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa


Definindo em uma palavra o romance Travessuras da menina má:

Ar-re-ba-ta-dor.

Como nas palavras da personagem Elena, que história de amor...! Como nossas vidas parecem retas e tradicionais comparadas às de Ricardo e... Lily?

É impossível ler esse livro e permanecer impassível. Cada capítulo nos traz uma torrente de emoções conflituosas e, muitas vezes, perfeitamente opostas, sempre muito intensas. A raiva de sentimos da menina má só é superada pela que sentimos de Ricardo — assim como a pena que sentimos dele, que só não é maior da que a chilenita nos causa. Ao mesmo tempo em que pensamos "ah não, de novo não, seu imbecil!", torcemos para que a guerrilheira sempre reapareça e bagunce novamente tudo o que está finalmente se estabelecendo... Acreditamos e duvidamos da menina má em sintonia com Ricardito; passamos raiva junto com ele; nos apaixonamos e nos decepcionamos na mesma medida. E, em alguns momentos, é difícil segurar as lágrimas. Só quem já leu esse romance pode compreender plenamente o que estou dizendo.

Nunca tinha lido Mario Vargas Llosa; já tinha, claro, ouvido coisas muito boas a respeito dele, mas o estilo de sua escrita me surpreendeu bastante. Está sendo curioso o quanto estou me surpreendendo positivamente com os escritores latinos — já fui cativado pelas prosas de Borges, Bolaño, Zafón, Márquez... e agora por Llosa. Acho que vai ser difícil achar algum que vai me desagradar; o próximo da lista é Cortázar. Vamos ver se ele merece 5 estrelas como mereceu (com louvor) a história dessa menina má.


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Um trecho marcante de José Saramago #3


Caim mal podia acreditar no que os seus olhos viam. Não bastavam sodoma e gomorra arrasadas pelo fogo, aqui, no sopé do monte sinai, ficara patente a prova irrefutável da profunda maldade do senhor, três mil homens mortos só porque ele tinha ficado irritado com a invenção de um suposto rival em figura de bezerro, Eu não fiz mais que matar um irmão e o senhor castigou-me, quero ver agora quem vai castigar o senhor por estas mortes, pensou caim, e logo continuou, Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito.
José Saramago - Caim

sábado, 27 de junho de 2015

Um trecho marcante de José Saramago #2


Já as pálpebras tinham começado a pesar-lhe quando uma voz juvenil, de rapaz, o fez sobressaltar, Ó pai, chamou o moço, e logo uma outra voz, de adulto de certa idade, perguntou, Que queres tu, isaac, Levamos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o sacrifício, e o pai respondeu, O senhor há-de prover, o senhor há-de encontrar a vítima para o sacrifício. E continuaram a subir a encosta. Ora, enquanto sobem e não sobem, convém saber como isto começou para comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar. Há uns três dias, não mais tarde, tinha ele dito a abraão, pai do rapazito que carrega às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim.
José Saramago - Caim 

domingo, 21 de junho de 2015

O espadachim de carvão, de Affonso Solano


Como é bom se surpreender positivamente, não é? Especialmente quando essa surpresa vem quebrando um preconceito bobo. Admito, para minha vergonha, que acreditava que os elogios à obra O espadachim de carvão eram grandemente devidos ao prestígio do autor Affonso Solano —figura central do podcast MRG— com seus fãs, mas percebi estar redondamente enganado.

Confesso, ainda, que só comprei o livro porque estava numa promoção incrível, e mesmo folheando-o meu preconceito persistia — o uso de frases de efeito, separadas do resto do parágrafo por linhas vazias, me dava ainda mais a impressão de... como dizer... falta de talento literário? Apelação? Em tempo: ainda não aprecio esse recurso, mas, antecipando o elogio, isso não tira o mérito da obra de forma alguma.

O espadachim de carvão é uma história muito bem escrita, criada —perceptivelmente— com muito carinho pelo autor, e muito bem pensada. O mito de criação do mundo onde passa a aventura —Kurgala— é tão verossímil quanto muitos que se referem à criação de nosso próprio mundo, e geram questionamentos, em certo momento da obra, por que não dizer?, pertinentíssimos. Solano criou uma história despretensiosa e, por isso, livre de amarras. É um mundo tão diferente que —ao que me parece— lhe dá uma liberdade criativa imensa. (Engraçado que me senti, em alguns momentos, lendo uma história próxima a um Final Fantasy Tactics ou o XII, que se passam em Ivalice, por causa da multiplicidade de raças inteligentes...) Acompanhar essa aventura foi como revisitar os filmes de fantasia dos anos 90 :)

Tenho uma única reclamação em relação a OEdC: seu final. Não à história, mas à velocidade em que ele foi apresentado. Tive uma impressão assim ao ler: "Opa, agora vamos nos encaminhar ao final e... ahn? Acabou?" Foi um desfecho, mas o clímax me pareceu muito curto.

Mas agora, para aliviar de novo, um outro elogio: Affonso Solano não faz aquelas descrições maçantes de cenas de luta. Escritores fazem literatura; coreógrafos são os profissionais que têm que se preocupar com os movimentos executados. É terrivelmente chato ler que "tal personagens girou duas vezes e, ao mesmo tempo em que trocava a base das pernas, rechaçava a lâmina do oponente com a sua, e, aplicando um movimento ascendente blá blá blá..." Sério, isso é um porre. E essa é uma cena de luta bem descrita:
"Igi e Sumi saltaram das bainhas como relâmpagos, rechaçando as investidas das guandirianas com perfeição e fechando a primeira seção de movimentos com uma garganta perfurada, um rosto cortado e uma lança partida. A criatura desarmada tropeçou para o lado e recebeu com um grito a lâmina de Sumi entre as costelas. A de rosto ferido cambaleou para trás e caiu com as costas encouraçadas no chão liso ao lado de Enki' När, guinchando por ajuda."
Não precisamos saber a descrição anatômica dos lutadores enquanto duelam em câmera lenta. Precisamos saber o que resultou daquela luta. É preciso deixar elementos para que a imaginação do leitor complete, e isso Solano faz bem também com outros elementos. Vi leitores reclamando da pouca descrição das espécies diferentes, mas isso, para mim, é um ponto a favor, e não contra. Didatismo, para mim, é para livros infanto-juvenis. Ou para autores que não dominam a arte — e nenhuma dessas duas sentenças serve para Affonso Solano.

Sem mais, nota 4 de 5 (para incentivar a melhoria sempre, hehe).


sábado, 23 de maio de 2015

Top 15 games de todos os tempos


Esse é o meu top 15 de games, de todos os tempos, de todos os consoles, uma lista altamente emocional e completamente imparcial, onde todos os aspectos avaliados são criteriosamente subjetivos :)

Percebeu uma palavrinha no começo do post — "meu"? Então. Aliás, sem ordem, só os quinze mais. O #1 não é melhor que o #5 nem que o #10.

#1 - Final Fantasy XII (Sony Playstation 2)

Já começamos bem, hein? Já vou listando o jogo mais polêmico da série como o melhor... Pensando bem, acho que o XIII já roubou o posto de mais polêmico. Enfim.

Mas, falemos sério, o FFXII é lindo, não? Acho-o o jogo mais bonito da franquia. Adoro a mecânica de combate; o sistema tradicional de turnos, por muitas vezes, me enche o saco. As lutas aqui são dinâmicas, o sistema de gambits é inteligentíssimo, você literalmente programa as ações dos seus personagens. Além disso, joguei muito pouco os VII, VIII, e agora que estou jogando o VI do Game Boy Advance, então não tenho muita opinião formada sobre eles. Os que mais joguei foram o III (NDS), IV (NDS) e V (GBA). Concordo que os personagens do XII não são nem de longe memoráveis quanto do IV, VI, VII... bem, quanto todos os outros, mas a história é, sem dúvida, a mais madura de todas — e também é o Final Fantasy mais Star Wars de todos né? :P



#2 - Sonic Adventure (Sega Dreamcast)

O primeiro jogo que joguei no Dreamcast, e, tendo em consideração toda a carga emocional que esse videogame e esse jogo têm para mim, posso dizer que esse é o melhor jogo do Sonic. Os clássicos são excelentes, o Adventure 2 é foda, os do GBA e NDS são muito bons e o Colors do Wii é legal também, mas esse primeiro foi mindblowing. A abertura em CG, a música da abertura, a primeira fase (que me deu enjoo na infância, hehe)... Sério, esse jogo é inigualável. Eu adorava até os personagens adicionais e seus modos história :)

Estou rejogando ele em sua versão DX para o Gamecube, no Wii.



#3 - Skies of Arcadia (Sega Dreamcast)


Final Fantasy-like, ok, mas e daí? Tem muita coisa própria e nova, como a batalha de navios, os monstros gigantes... O mundo composto por ilhas voadoras, "sem" superfície... Além dos seus personagens cativantes... A história cheia de plot twists... E foi o primeiro RPG que zerei na minha vida. Tenho memórias muito boas com ele, e está legal até hoje. Estou jogando ele de novo também, em sua versão Legends, também do Gamecube e no Wii :)



#4 - Shadow of the Colossus (Sony Playstation 2)

Quem não passou por bons momentos jogando esse jogo? Um jogo verdadeiramente lindo, desafiador e inovador o bastante para ficar para sempre marcado na história dos games. Joguei ele recentemente, mas rapidamente entrou no meu disputado top 10 :P

E é sempre impactante ver um Colosso pela primeira vez, não?



#5 - Crash Bandicoot 3: Warped (Sony Playstation 1)

Taí um jogo antigo que eu descobri recentemente, e é o mais novo integrante dessa lista. Já tinha dado uma jogadinha rápida no passado, mas eu ainda não era um gamer. Agora, revisitando-o, percebo o quanto esse jogo é bom! Divertido, engraçado, bonito, com boa jogabilidade e bastante personalidade, além de não ser muito difícil — pra mim, isso é imprescindível. Não sou um jogador muito bom, e fico frustrado muito facilmente com jogos muito difíceis. Entendam: jogo desafiador não é jogo difícil. São coisas diferentes. E o Crash Bandicoot 3 é desafiador e divertido ao mesmo tempo, ao menos para mim.




#6 - The Legend of Zelda: Ocarina of time (Nintendo 64)

Embora eu nunca tenha tido um Nintendo 64, tenho um grande amigo que tem (ou tinha, ao menos) um, então fazíamos "intercâmbio" às vezes — ele levava para a casa dele meu Dreamcast e eu ficava com o 64 dele; então tive a oportunidade de zerar essa maravilha.

Um jogo divetido, desafiador o bastante, tem ação e nos obriga a usar o cérebro (maldito Templo da Água) e, para a época, era bastante bonito. O sistema de "trava Z" era perfeito — e por isso foi copiado ad nauseum depois —, e era incrivelmente longo para um jogo de 64.

Não é à toa que é considerado por muitos o melhor jogo de todos os tempos.



#7 - Super Mario Bros. (Super Nintendo Entertainment System)

Considerando a versão contida em Super Mario All Stars, um remake do jogo original de NES. Embora todos os jogos do Mario sejam excelentes, escolhi esse por sua carga histórica e emocional para mim. Foi o primeiro jogo do primeiro videogame que tive, um clone do Nintendinho, e acho que joguei ele mais do que qualquer outro jogo na vida. O remake dele ficou muito bonito, no estilo gráfico do SNES, e jogo-o constantemente. Para mim, é o jogo de Mario perfeito do melhor estilo de jogo que existe — plataforma.



#8 - Ninja Gaiden 2: The dark sword of chaos (Nintendo Entertainment System)

Esse jogo é ótimo, mas, principalmente, está aqui pela carga emocional que traz. Como o jogava na casa dos meus primos, significava viagem, brincadeiras, fuga da rotina, desafio insuperável. É um jogo difícil, mas não exageradamente. Nunca consegui zerá-lo, mas um dia chego lá. Apesar de também ter um remake para o SNES, ainda gosto mais da versão do Nintendinho.

Tem gráficos ótimos para o NES e a melhor música de abertura de todos os tempos, chamada Chaosium sword.



#9 - Shining Force (Sega Mega Drive)

O primeiro RPG estratégico que joguei, e posso dizer apenas que é fantástico. Joguei o Shining Force II também e é tão bom quanto o primeiro, mas esse foi pioneiro. Não o joguei na época, mas no emulador oficial da Sega — o Sega Smash Pack — para o Dreamcast. Também joguei o remake dele para o GBA, chamado Shining Force: Resurrection of the Dark Dragon. Seu sistema de turnos é muito legal, e, ao contrário de Final Fantasy Tactics, você pode andar e explorar o mundo livremente, o que muito me agrada. Não gosto de jogar RPG apenas pelas batalhas; tem que ter aquele "algo mais".



#10 - Rayman 2: The great escape (Sega Dreamcast)

Esse jogo ganhou o lugar de três outros, que ficarão com as menções honrosas, justamente por sua diversão. O Dreamcast tem uma importância muito grande na minha formação gamer, então é a versão dele que entra aqui. É um jogo lindo, divertido, com uma trilha sonora muito gostosinha, daqueles que você não cansa de jogar por horas a fio.



# 11 - Headhunter (Sega Dreamcast)

Minha primeira experiência com jogos de mundo aberto, e uma experiência fantástica — praticamente: GTA + Metal Gear Solid + ficção científica. Não é um jogo muito lembrado pelo mundo gamer em geral, mas sua história é excelente. Tem músicas excelentes e uma dublagem memorável, além de ser muito divertido (altas risadas com aquelas cenas de jornal com pessoas de verdade). Jogaria de novo facilmente; até hoje seus gráficos são bonitos.



#12 - God of War (Sony Playstation 2)

Esse não precisa nem falar nada, né? Um salto na forma de apresentação de história, quase um cinema em formato de videogame. Os ângulos de câmera são coisas que eu nunca tinha visto antes. Além, claro, de ser um jogo de ação frenético, com uma jogabilidade perfeita e um nível de dificuldade desafiador sem ser apelativo. O God of War 2 pode ser até bom, mas não teve o impacto que o primeiro teve.



#13 - Silent Hill: Shattered memories (Nintendo Wii)

Conheci a série por esse jogo, ao contrário da maioria dos jogadores e fãs de Silent Hill. Poderia dizer que é por isso que ele se tornou meu favorito da franquia, mas isso não seria inteiramente verdade. Shattered memories — uma reinvenção do primeiro jogo — está no meu top porque é um dos jogos mais memoráveis que joguei em minha vida! Seu jeito de contar a história é simplesmente fantástico, e foge completamente dos padrões de jogabilidade da própria série — e que eu já conhecia antes pelas franquias Resident Evil e Dino Crisis. Quando o terminei pela primeira vez, o fiz no Playstation 2, mas a versão do Wii está aqui pelos seus gráficos aprimorados e, mais do que tudo, pela jogabilidade perfeita proporcionada pelo Wiimote.

Além de tudo, ele me traz ótimas lembranças, porque o zerei pela primeira vez junto com minha esposa, sempre à noite e no escuro :)




#14 - Power Blade (Nintendo Entertainment System)

Um joguinho honestíssimo de Nintendinho. Criativo — afinal, o protagonista usa bumerangues como armas. Diga de memória algum outro jogo onde essa arma é a principal. Além de ser uma boa história de ficção científica (já foi comentado nesse post, sobre jogos que dariam bons livros), tem uma jogabilidade simples e gráficos ótimos para o NES. E o Power Blade 2 também vale a pena.



#15 - Mario Kart Wii (Nintendo Wii)

E, por último mas não em último, o representante máximo dessa série fantástica que é Mario Kart. Desde o 64 me divirto com ela, passando alegremente pelo Super circuit do GBA, pelo Double dash!! do Gamecube, pelo Mario Kart DS e, agora, pelo incrível Mario Kart Wii. Um jogo que, apesar de já ter encontrado o caminho da perfeição em diversão, ficou, nesse jogo, perfeita também em jogabilidade por incorporar o movimento de virar o controle para virar o kart. Para mim, não tem mais o que melhorar. (Não, ainda não joguei o do Wii U.)



Acho que, por enquanto, é isso. Meu Wii é recente, então pode ser que mais algum de seus jogos venha a adentrar a lista. Fortes concorrentes ele tem, então... Além disso, em breve comprarei um Playstation 3, e aí o coro engrossa...

Mas e você, amigo leitor? Qual o seu top de games de todos os tempos? Sinta-se à vontade para deixá-lo nos comentários ;)