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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Meu Mapa de Influências comentado


Como uma ideia que surgiu no Facebook — e, logo, que todo mundo repetiu —, eu também não podia ficar de fora: criei meu próprio mapa de influências enquanto escritor.

No entanto, gostaria de comentar mais sobre cada um dos autores mencionados e como eles me influenciaram.


Quando — para quem é escritor — chegamos àquele famoso momento, “quero escrever assim”, é, via de regra, porque nos deparamos com obras que nos tocam profundamente. Podemos dividir, ainda, essas obras em dois grupos: a dos escritores que nos encantam, e a dos mundos que nos encantam. Ou dizemos “quero escrever assim” ou “quero criar um mundo assim”. É, precisamente, nesses dois grupos que estão as quatro pessoas que ocupam os maiores quadros nessa montagem: Neil Gaiman, Stephen King, Hironobu Sakaguchi e J. R. R. Tolkien.

Primeiramente, Neil Gaiman. A obra dele condensa ambos os encantamentos — me encanta enquanto escritor, por dizer tanto com tão pouco, por criar climas e trazer à tona tantos sentimentos com frases simples, fugindo do rebuscamento, precisas e diretas, e ainda assim poéticas; e me encanta enquanto criador de mundos, porque o que ele fez em Deuses americanos, Os filhos de Anansi e O oceano no fim do caminho — suas obras que se passam em seu mundo de deuses — inspiraram boa parte da minha produção. Um conto meu que é totalmente inspirado na obra de Gaiman é o Nil.

Stephen King me ensinou a construir personagens. Pode–se falar o que for de suas obras (o que, na maioria das vezes, eu não concordo), mas não se pode falar que ele não é genial na construção de seus personagens. Com ele, eu percebi que todos os personagens têm uma opinião formada em relação a absolutamente cada aspecto de suas vidas, e isso afeta sua maneira de ser. Que os aspectos da vida de cada um forma o que eles são. Na obra de Stephen King, é facílimo perceber que, se os personagens envolvidos em suas tramas fossem outros, essas mesmas tramas iriam por caminhos muitíssimo diferentes. São os personagens que criam as tramas, e não o oposto. Foi por causa dele que fiz o que fiz em O arquivo dos sonhos perdidos, e que é criticado por algumas pessoas: pus personagens “comuns” numa trama épica, e o modo como eles são — ou não são — altera totalmente o que poderia se esperar da história.

Hironobu Sakaguchi entra no outro campo — o dos construtores de mundos. Para quem não conhece, ele é o criador da série Final fantasy, e essa série é a maior responsável por eu misturar magia e tecnologia em minhas obras — especialmente o que ele fez em seus “episódios” VII e XII. Sakaguchi, ao criar esses mundos, mostrou como magia e tecnologia podiam coexistir e se completar, e isso abriu minha mente para novas possibilidades. Isso, combinado com o que J. R. R. Tolkien fez em O senhor dos anéis, e que dispensa totalmente apresentações e exaltações, me fez perceber que sim, eu podia criar um mundo que juntasse tudo o que eu gosto, desde que, para isso, ele tivesse coerência — o que, no meu modo de ver, foi onde esses dois mestres mais brilharam: dar coerência para mundos totalmente fantásticos. (Nesse aspecto, mas em menor monta, coloco também o Shigeru Miyamoto, e especialmente pelo que ele fez em The legend of Zelda. Boa parte da estrutura de O arquivo é inspirada em Zelda, que me marcou muito graças à maestria de Miyamoto em criar aventuras e sub–aventuras que acabam se ligando em uma trama maior. É uma influência muito mais quanto ao “clima” da aventura, baseada em sensações, do que em elementos de trama em si — mas que não podia ser negligenciada.)

Os outros, com as fotos menores, podem ser divididos entre os que tiveram influência no início da minha escrita — ou para que eu a iniciasse, por assim dizer —, e os que estão me influenciando por agora. Dos primeiros, que me motivaram a escrever e criar histórias, estão Jules Verne e Leonel Caldela. Minha adolescência e início da vida adulta foram lendo as obras de Verne, e, mais uma vez, aquele tom de aventura e descoberta de seus livros me encantavam enormemente, e isso se refletiu n'O arquivo. Já o Caldela foi diretamente responsável por esse livro de fato existir. Através de seu romance O inimigo do mundo eu percebi que, sim, um mundo fantástico poderia ser transformado em uma história “realista” e brutal, e, durante a escrita, eu fraquejei, como o fazem muitos autores iniciantes. No finado Orkut, então, eu perguntei a ele como ele conseguiu realmente levar a cabo aquela tarefa ingrata de escrever um romance longo, e, ao contrário da minha expectativa, ele respondeu — e ainda me deu um puta incentivo para continuar. Imagino que, se ele não o tivesse feito, talvez eu não fosse um escritor hoje em dia…

Os que faltaram são os que estão me influenciando atualmente. De forma parecida com o King, o Ray Bradbury também me influencia a voltar meus olhos durante a escrita para os personagens — e ele, também como Gaiman, me mostra que pode haver poesia no modo de escrever. No entanto, enquanto o Gaiman me pauta a forma de criar fantasia e o King a de criar histórias realistas ou de suspense, o Bradbury é meu maior exemplo no campo da ficção científica. Ele me mostra que esse gênero deve ir muito além dos tecnicismos e focar no que realmente importa: as pessoas. Um conto curto em que eu aplico isso é o A distância e a espera. Já o Douglas Adams foi quem me ensinou a colocar ironia, cinismo e sarcasmo de maneira inteligente em meus textos, e que esse tipo de humor é muito melhor do que a comédia escrachada, que não vai bem na literatura — e que rir de si mesmo é a melhor maneira de rir da humanidade. Além, é claro, de usar o nonsense para compôr o humor causado pelo estranhamento — e que fiz no conto Aquecimento global (Em fogo alto). O Haruki Murakami foi o penúltimo a ter adentrado esse rol de escritores, e é um dos meus preferidos da atualidade. Existem outros preferidos que não entraram na lista de influências, e por quê? Porque Murakami me ensinou algo que nenhum dos outros pôde: a ter calma para contar minhas histórias. A dar atenção a pequenos detalhes do cotidiano, a sentimentos, a impressões, a eventos banais e que acabam influenciando um personagem muito mais do que parece. E, também, além disso, a incluir eventos esdrúxulos em minhas histórias fazendo–os parecer perfeitamente banais e corriqueiros, hehe. Talvez o meu conto que mais reflita isso seja o Into blue. E, por último, o cineasta David Lynch, que merece um parágrafo próprio.

Existem modos e modos de se contar histórias. Existem jornadas do heróis, existem narrativas epistolares, existem outros tipos de storytelling… e existem as colchas de retalhos de Lynch. Assistir a um filme dele não é fácil, mas é recompensador. Bom, talvez não seja recompensador na primeira assistida, haha, mas se você persistir e revê–lo, talvez mais de uma vez, as coisas começam a fazer sentido… ou não! Mas a intenção de Lynch nunca foi a tradicional de passar uma mensagem clara; pelo contrário, ele espera que o expectador construa sua própria versão dos fatos, e entenda a história de sua própria maneira. Tudo bem que eu acho que ele passa um tanto da conta às vezes, hehe, mas o que ele me ensinou é que existem outras maneiras de contar as histórias, e, especialmente, maneiras que exijam atenção, reflexão e o raciocínio daquele que está consumindo sua história! Fiz isso em minha última obra publicada, o conto Sob a sua árvore, e estou fazendo no romance que estou escrevendo, totalmente diferente de qualquer outra coisa que eu já publiquei. Nessas duas obras, se o leitor não prestar atenção e raciocinar sobre o que está lendo, pode ter certeza de que chegará ao final com um gosto estranho na boca. E, arrisco dizer, que esse modo de contar histórias irá pautar boa parte da minha produção de agora em diante…

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Leituras de Janeiro '18


Vou tentar fazer uma coisa nova: postagens mensais, falando dos livros que eu li durante o mês. Tenho sentido necessidade de falar de mais livros do que acabo falando nas retrospectivas anuais, tanto bem quanto mal, haha, e então vou ver se isso dá certo :P

Vamos então às minhas leituras de janeiro de 2018!


Bom, do Estação Perdido eu acabei de falar nessa postagem. É, simplesmente, um dos melhores livros de fantasia — ou new weird, como se considera — que li em minha vida. Li em e–book, mas esse eu vou querer ter na estante, ao lado de A cidade & A cidade, também do China Miéville, que eu já tenho. Compensa cada centavo que se pagar nele (sorte que eu paguei menos de R$ 10, numa promoção na Amazon :P)


Eu estava esperando muito desse A misteriosa morte de Miguela de Alcazar, do Lourenço Cazarré, mas a decepção foi total. Minha expectativa era em parte porque gosto bastante de livros policiais, e em parte por causa do tanto de elogios que li sobre a obra. O que acontece é o seguinte: um jornalista é enviado para um hotel em Brasília para cobrir um evento que reunirá os maiores autores de literatura policial do mundo — só que um deles é assassinado, e cabe ao protagonista ajudar nas investigações. O problema é que o livro é mais um livro de comédia do que policial — e, a meu ver, numa versão pobre do que Jô Soares faz em suas obras. Os autores famosos da trama são versões debochadas de autores reais — como a Águeda Christine, o Georges Sim Et Non e o chinês Foo Lee Shi Man (que trocadilho horrível) —, e a única coisa que me fez rir foi o fato de cada um deles ter aprendido a falar em português, mas cada um com um sotaque diferente — mineirês, nordestino, gauchesco… De resto, as situações e piadas me deram vergonha alheia, e abandonei o livro na metade. Li na versão física, e me arrependo dos R$ 10 que paguei nele. A única coisa legal é a capa, texturizada e criativa.


O fim do mundo é um conto satírico sobre, bem, o fim do mundo — dessa vez por causa de um cometa. Claro que não é para ser “levado a sério”, mesmo porque ele é mais uma sátira à sociedade da época do que, propriamente, uma história de fantasia ou ficção científica. A graça dele é exatamente usar esse tema, tendo em vista ter sido publicado em 1857. Sim, você leu certo — mil OITOCENTOS e cinquenta e sete. E, se você ainda não reparou, é uma história de Joaquim Manuel de Macedo, aquele mesmo, que escreveu A moreninha. Essa versão que li é em e–book, da editora EX!, e traz uns extras bem legais, além dessa ótima capa. Vale conferir.


O Haruki Murakami já é um dos meus autores preferidos, e O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação só provam que tudo o que ele escreve merece ser lido. Li esse em e–book, mas dá uma vontade imensa (quando eu tiver espaço) de comprar todas essas edições primorosas da editora Alfaguara para tê–las ali, lado a lado, ostentação pura :) Os personagens são cativantes, a trama é boa como qualquer outra do japonês, o ritmo e o clima da narrativa são imersivos e transportam você para o local — mas isso já era totalmente esperado, sendo uma obra do mestre Murakami. Vai ser difícil, após ler todas as obras dele, montar um top 5… A capa, apesar de simples, representa bem a história, apesar de isso não ser nada claro antes de o livro ser lido :)


E, por fim, a edição 16 da revista Trasgo, editada e organizada e encabeçada pelo Rodrigo van Kampen. Dessa vez, eu destaco os contos O estranho caso dos professores que assobiavam, do Leonardo Maran Neiva, o Revoluções, da Vimala Ananda Jay (que eu conheci pessoalmente, junto ao Rodrigo, no lançamento do livro Trasgo: Ano 1), e o Mylène, da Anna Fagundes Martino (A forma da água, é você…? Olha o Del Toro se inspirando na Anna; melhor checar isso aí :P) Os outros contos, a meu ver, não trouxeram nada de novo, sendo até meio chatinhos. A capa é linda, do sempre ótimo ilustrador Jean Milezzi, mas, quanto aos 3 outros contos não mencionados, acho difícil — ou fico preocupado em — imaginar que tenham sido os melhores dentre as dezenas de contos que os editores recebem a cada edição…


Enfim; é isso aí — essas são as minhas leituras do mês de Janeiro. Espero conseguir fazer mensalmente esses posts, porque realmente é muito bom falar algo, mesmo que pouco, de cada um dos livros que li :)

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Estação Perdido, de China Miéville


Já acho complicado falar sobre coisas de modo não–ficcional; sempre acho que deixo passar coisas importantes em detrimento de aspectos menos relevantes, mas que me chamaram a atenção… Como falar sobre, então, um livro que já — com facilidade — entrou, de cara, no meu Top 10 de livros da vida…? Pois é: Estação Perdido é bom a esse nível.


Estação Perdido me agrada em diversos níveis, a exemplo do que acontece com minhas outras obras preferidas. Vou tomar como exemplo O senhor dos anéis: Ao mesmo tempo em que a escrita contemplativa e épica de Tolkien me acalma, gosto da construção (simples) dos personagens; do cenário, rico e com tons de sonho; da amizade construída entre eles; da grandiosidade da história e ao mesmo tempo da pequenez do personagem principal e da mensagem que isso passa ao final. Outro exemplo: Deuses americanos. Gosto do mundo; gosto do personagem principal, ainda que o critiquem, mas gosto justamente por sua passividade — por sua “deboice", tão semelhante à minha —; gosto da estrutura de “road movie”; gosto dos contos intercalados; gosto da pausa no meio, para apresentar a vida e o mistério daquela cidadezinha pacata… Assim como em A estrada: Gosto da escrita do Cormac McCarthy; gosto dos personagens; gosto do mundo, cru, seco, cruel… E aqui, nessa história de China Miéville, gosto do mundo, dos personagens, da trama, das surpresas, da mescla de gêneros literários… Resumidamente: gosto de tudo.

Começando pelos personagens: são ricos em construção de personalidade como em poucas obras por aí. Todos seguem a lógica real da humanidade (mesmo que não sejam humanos na acepção estrita da palavra): têm vontades e seus esforços são em prol de realizá–las. O protagonista, Isaac Dan der Grimnebulin, é um humano de meia–idade, gordo e negro, cientista e que vive à margem do sistema, que vive um romance proibido com uma mulher de outra espécie, Lin, uma khepri — praticamente uma humana com cabeça de besouro —, que é uma artista excluída de seus iguais. Por aí já podemos ver que não acompanharemos heróis, reis ou nobres, como seria esperado em uma história “padrão” de fantasia.

Aliás, deslocado é uma boa palavra para falar dos personagens de Estação Perdido. Todos os são, em diversos níveis. Além da dupla principal, temos o garuda Yagharek, que foi condenado pelos seus e fugiu, procurando Isaac para ajudá–lo a reverter os danos dessa condenação; e ainda Derkhan, uma amiga humana deles, que participa de um grupo revolucionário contra o governo. Até mesmo os antagonistas da trama — o monstruoso “contratante” de Lin e as cinco mariposas — são deslocados e sozinhos, procurando seu lugar no mundo. Essa parece ser a tônica da cidade de Nova Crobuzon, onde se passa a trama — um aglomerado de pessoas deslocadas, sozinhas, literalmente perdidas em uma rotina sem sentido.

A trama é outro aspecto que vai por caminhos inesperados. Apesar de começarmos acreditando que é no trato de Isaac e Yagharek que o livro vai prosseguir, é no desdobramento inesperado que isso ocasiona que o livro realmente tem seu prosseguimento — e acreditem em mim: não “sobra” nada em suas 608 páginas; tudo ali está bem colocado, tem sua função narrativa ou para dar mais verossimilhança ao mundo de Bas–Lag. Claro que algumas pessoas irão encontrar — imagino — “excesso de informação”, mas não foi o meu caso. Tudo o que me foi ali descrito por Miéville foi delicioso de ler — e, coisa que pouco me acontece hoje em dia, deixa, até agora, mais de um mês depois da leitura, uma espécie de saudade ou vontade de retornar àquele universo. É por isso que pus o Estação Perdido no meu “top da vida”: ele deixou marcas, em meio a tantas obras mais ou menos semelhantes que existem por aí e que são lidas e esquecidas logo em seguida.

Que venham logo para o Brasil as outras obras que se passam no mesmo mundo de Bas–Lag, chamadas The scar e The iron council, ainda sem tradução mas já confirmadas pela editora Boitempo.

E que venham também todas as outras obras do autor!

Nova Crobuzon, na visão do artista Thomas Chamberlain
Homens–cactos, outra raça das várias de Nova Crobuzon, pelo artista JP Cokes
Yagharek e Lin (não encontrei o nome do artista)
Isaac Dan der Grimnebulin, pelo artista Lipatov
E, por fim, esse incrível figurino de Isaac e Lin — ao que me parece, de um trabalho de conclusão de curso para uma escola de teatro, executado pela artista Anastasia Prokonova

Meu plano sombrio


Quem leu O arquivo dos sonhos perdidos pode ter percebido que, em certo momento, o grupo dos protagonistas se separa… e não vemos o que acontece com os que permaneceram no grupo principal, na Itália.

E é justamente o que acontece nesse momento que é relatado no conto My shadow plan, publicado pela editora Draco ainda antes da publicação do romance.


My shadow plan é um conto de fantasia urbana, mas também é um conto de investigação. Na cidade amaldiçoada de Agliana, onde não para de chover há muito tempo, a filha do Regente está desaparecida, e há indícios que um membro da Câmara esteja envolvido. Como não puderam passar direto pela cidade, cujas estradas estavam interditadas por uma espécie de “ninguém entra ninguém sai" decretado pelo Regente, desesperado, os membros do grupo — os protagonistas de O arquivo dos sonhos perdidos — fazem um trato com o militar responsável pela segurança da cidade: ajudar, como puderem, na solução do mistério, e, após isso, serem liberados para prosseguir com a viagem.

Obviamente, as coisas não se resolvem tão facilmente; o clima na cidade é denso, pesado — e não estou me referindo somente às condições climáticas... ainda que seja de se esperar que, numa cidade em que não se vê o Sol, as emoções se concentrem na porção negativa do espectro. Além disso, o protagonismo dessa vez não é centrado em Jess Laguna, o “ponto de vista central" de OAdSP; acompanhamos a narrativa da investigação mais sob os olhos e ações de Roy MacNamara, o enorme maori, e seu novo aliado, o decurião Maurillion.

Mas, Rahmati, eu preciso ter lido O arquivo dos sonhos perdidos para ler My shadow plan? Não :D

Aliás, esse conto é uma excelente porta de entrada para o mundo de Acqua, que é onde se passam ambas as aventuras, e serve como uma boa avaliação, tanto do meu estilo de escrita quanto do universo da trama — e por uma fração do preço e do tempo de leitura que você gastaria no romance :)


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Um trecho marcante de George Orwell


O Partido dizia que a Oceânia jamais fora aliada da Eurásia. Ele, Winston Smith, sabia que a Oceânia fora aliada da Eurásia não mais de quatro anos antes. Mas em que local existia esse conhecimento? Apenas em sua própria consciência que, de todo modo, em breve seria aniquilada. E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido — se todos os registros contassem a mesma história —, a mentira tornava–se história e virava verdade. “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado", rezava o lema do Partido. E com tudo isso o passado, mesmo com sua natureza alterável, jamais fora alterado. Tudo o que fosse verdade agora fora verdade desde sempre, a vida toda. Muito simples. O indivíduo só precisava obter uma série interminável de vitórias sobre a própria memória. “Controle da realidade", era a designação adotada. Em Novafala: “”duplipensamento"."

George Orwell – 1984


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Realidades Cabulosas: Ano 1


Que alegria ver a primeira coletânea que editei — com o meu amigo Lucas — virar realidade, após um ano de preparação e de cuidados...! Quando fui convidado pelo pessoal do Leitor Cabuloso via Lucas para ajudar com os contos, e dei a ideia de que aquelas histórias pudessem integrar uma coletânea, até, sinceramente, achei que a coisa não fosse virar. Que algo fosse, no meio do caminho, empacar. Já comecei muitos projetos legais que, por dependerem de outras pessoas, acabaram parando; no entanto, é muito bom ver esse dar certo em tantos níveis que é até difícil pôr em palavras o quanto ele me alegra.


Primeiro ponto que me traz satisfação: eu sinto que realmente estou fazendo algo pela literatura nacional. Revisando, ajudando a publicar contos com mais cuidado do que geralmente se vê por aí. Descobrindo bons autores e/ou boas histórias… Ajudando a abrir um espaço para os novos autores serem publicados, através da ajuda de um site maior, mais conhecido, de uma forma melhor do que eu poderia fazer sozinho.

Segundo: estou valorizando os contos — formato que eu amo. Histórias marcantes contadas de uma vez; porradas na cara; as melhores deixando um resíduo que dura, na mente e no coração. Entendo que certas histórias precisam de tempo para serem desenvolvidas, por isso precisam de mais palavras, mas com os contos pode-se realizar coisas novas, diferentes, mais malucas, mais rápidas, ou menos tradicionais, ou… bem, vocês entenderam.

Terceiro: O pontapé inicial no selo Cabuloso Livros, que, espero, vá ajudar a valorizar ainda mais a literatura nacional — com um destaque todo especial para o formato de histórias curtas.

Quarta alegria: Ter contado com a participação de dois autores convidados fantásticos, a Priscilla Matsumoto, autora do excelente Ball jointed Alice, e o Fábio Fernandes, grande autor de FC e de 3 livros que eu li só no ano passado — a nova versão de Os dias da peste, o ótimo livro de contos Interface com o vampiro, e o necessário De A a Z: Dicas para escritores. Além disso, ter tido escritores já de nome, como o J. M. Beraldo e o português Bruno Martins Soares, enviando contos para o site e consequentemente participando da coletânea.

Dentre outras alegrias, menores e inúmeras, ao longo do ano… Algumas decepções também ocorreram — como a de um autor que não autorizou que o conto entrasse na coletânea, e a capista que pulou fora aos 45 do segundo tempo —, mas o saldo com certeza foi muito mais que positivo!

Introdução (longa…) feita, vamos falar sobre cada um dos contos!


1. Memento mori com Fernet, de Michel Peres

Uma das melhores surpresas de contos recebidos, e possivelmente o melhor conto de ficção científica que li em 2017. Conta a história de Mariana, uma especialista em “cultivar tecidos" — uma tecnologia nova —, e de quando ela conhece Charlotte, uma artista vinda de outro país para mexer com sua vida. Além da escrita ótima, fluida, sem firulas ou vontade de se mostrar por parte do autor, a trama é inovadora, segue caminhos inesperados e apresenta um futuro criativo e visionário. Destaque também para o divertido androide André, o Andréoide.

2. Onironauta, de J. M. Beraldo

Um conto de fantasia do premiado autor de Império de Diamante e sua continuação, Último Refúgio, que saíram pela editora Draco e, no caso do primeiro, ganhou o prêmio Argos. Esse conto se passa no mesmo universo de ambos os romances, e apresenta a personagem Vema, uma onironauta — alguém que viaja pelos sonhos — que tem um trabalho a fazer. Ótimo conto, curto e direto. Deixou a vontade de entrar em seu universo dos Reinos Eternos (e o farei em breve).

3. Eva & Morte, de Joe de Lima

Esse conto de fantasia apresenta uma trama que leva a um plot twist ótimo, e falamos disso — eu, o Lucas e o Matheus Salfir — em um episódio do podcast SobrEscrever. Tem um ritmo bom, foge dos clichês do personagem Morte e, o que percebo só agora, podem rir, é que é o terceiro seguido com uma protagonista do sexo feminino seguido. (O próximo também, haha, que editor de merda eu sou :P)

4. Ziggy Stardust, de Magdiel Araújo

Pensem num conto divertido! Aqui, somos apresentados à “zumbí" Ziggy Stardust, a primeira (de acordo com o seu conhecimento) a ter consciência, saber falar, ler e escrever! E é isso o que ela faz: escreve um diário contando suas desventuras e descobertas. Excelente conto! Vão ler!

5. Defenestrada, de Sonia R. R. Rodrigues

O primeiro conto policial da coletânea. E um dos maiores, justificadamente, para desenvolver a trama. Contudo, não é maçante em momento nenhum, e o ritmo da investigação e das descobertas por parte do detetive Bernardo é muito bem montado, resultando assim num conto inteligente e bastante atual.

6. Nas nuvens, de Fábio Fernandes

Eis o primeiro conto de autor convidado — uma FC também atualíssima, que trata do extremismo conservador para o qual nosso país parece estar se encaminhando. Um bom conto, que usa um elemento que adoro: referências musicais. Aconselho, inclusive, a buscarem as músicas apresentadas no conto, porque valem a pena.

7. Houston, de Bruno Martins Soares

Outro conto divertido e de FC. Não há, nele, uma trama propriamente dita, mas uma extrapolação surrealista sobre um incidente matematicamente possível (ou impossível?). Também há referências para quem as souber encontrar. A escrita do autor é ótima, como se pode também conferir em seus contos na Amazon, em e–book.

8. Ninho do Corvo, de Luis Henrique da Cunha

Um conto de ficção histórica, que pode ser de fantasia ou não, dependendo da interpretação do leitor. O final desse também é interessantíssimo, e o que parece clichê com certeza não é. Muito bem executado.

9. Pat Coelha contra o Porco, de Evelyn E. Postali

Um conto de fantasia divertidíssimo! Eu, ao menos, achei. Apresenta um mundo interessantíssimo, cheio de vida, com background, personagens interessantes, num espaço de tempo curtíssimo, ágil e com personalidade. Ótimo conto.

10. Os presbíteros de São Luís e o santo suicida, de Luís H. Beber

Esse é um conto nonsense, que sei que dividirá opiniões, mas eu, particularmente, considero–o um dos melhores da coletânea. Cheio de referências, de becos sem saída, de informações aleatórias, e ainda assim que constrói trama, dá passado aos personagens, tem humor refinado, críticas ácidas e confunde explicando. Tão bom quanto lê–lo é relê–lo.

11. Cor viva, de Adriana Rodrigues

Outro conto de literatura realista, mas dessa vez mais intimista. Apresenta uma personagem que tem que achar um sentido em continuar após a perda de alguém importante. Muito bem escrito, com um tom até opressor. Bem bom e bem forte.

12. Filosofia trágica, de Matheus Salfir

Mais um conto policial, mas dessa vez constituído inteiramente por diálogos. Quando recebemos o conto, demos uma ideia ao autor: já que não há nenhum tipo de narração ou mesmo verbo dicendi, por que não remover as pontuações de diálogo...? Ele removeu, gostou e assim ficou. Além disso, traz interessantes reflexões filosóficas, e um personagem em alta nos dias de hoje: aquele que se aproveita da credulidade dos outros.

13. A filha do Sol e da Lua, de João Paulo Effting

Um conto interessante de fantasia, de temática indígena, de certa forma até pouco comum na produção nacional, mas que tem tido mais representação ultimamente. Mostra a história da personagem Inca–Mair, desde criança diferente dentre os da sua tribo.

14. A verdade é apenas uma, de Priscilla Matsumoto

Este é um conto curioso. Intimista, e digo que é curioso porque me parece que pode encarado tanto como ficção realista quanto ficção científica, com realidades alternativas que podem ser físicas ou simplesmente sonhadas, imaginadas, esperadas. Um conto muito bom, mas que, a meu ver, exige mais de uma leitura para ser absorvido em totalidade (e não que isso seja ruim, claro).

15. Um café e o fim do mundo, por favor, de Rafael Peregrino

Um conto de terror, o primeiro a dar as caras na coletânea, mas um terror psicológico, de inspiração lovecraftiana e meio nojento, haha — mas ainda assim muito divertido. Na verdade, o título é o desejo antigo de muita gente :P Além disso, o conto tem um ritmo muito gostoso de ler.

16. Quantos, de Daniel dos Santos Soares

Outro conto realista e intimista. Confesso de me fez lacrimejar, haha. Muito bonito, e tem uma estrutura muito interessante, intercalando pontos de vista de forma ágil até que tudo faz sentido e se junta no final. Hoje, relendo, eu não me emociono tanto, mas talvez no dia da primeira leitura eu estivesse no mood certo para ser tão atingido.

17. Saco de vermes, de Priscilla Rúbia

O segundo conto de terror da coletânea, e que traz de volta uma lenda urbana bem brasileira, e que, ao meu ver, estava meio esquecido dentre todas as figuras do nosso rico folclore, seja urbano ou rural. Traz uma sociedade distópica — mas não impossível em seu aspecto político, dado o rumo das coisas —, e um casal terrível, daqueles que, como se diz por aqui, é melhor perder do que achar.

18. Um jeito de arrumar as coisas, de Lucas Rafael Ferraz

E finalmente os contos dos organizadores — porque, depois de tanto trampo, nós merecemos, né? O conto do Lucas é facilmente encaixável em qualquer temporada de Black mirror, e parece muito próximo de nossa própria realidade. Traz uma reflexão também validíssima em nossa sociedade, a respeito das relações interpessoais e das “bolhas" em que vivemos.

19. Enquanto vagueio pelas cinzas do mundo, de eu mesmo :)

E, para encerrar, o meu conto. É uma ficção fantástica, e me surgiu no formato de um questionamento: e se uma pessoa fosse sumindo aos poucos? Tipo, primeiro perdendo objetos, depois momentos, depois todo o resto...? Então, escolhi a pobre protagonista Nicole para encenar essa tragédia. Ela deve estar por aí, ainda; você é que não lembra dela. Ah, e, como curiosidade, pesquise o título no Google; vale a pena ;)


Enfim; creio que foi um trabalho bem–feito, publicado com honestidade — nenhum valor foi cobrado, de ninguém, e a versão em e–book é de download gratuito, aqui, e a versão física, que pode ser comprada aqui, custou só o que o Clube de Autores cobrou, como pode ser visto nesse print screen da tela de direitos autorais:


O negócio, agora, é começar a trabalhar no Ano 2 das realidades cabulosas, primeiro no Leitor Cabuloso, depois na coletânea, e partir para voos maiores — aguardem mais novidades sobre o Cabuloso Livros, que não perdem por esperar!

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Retrospectiva Literária 2017


E, seguindo a tradição do blog, chegamos ao fim de mais um ano de leituras e escritas — e trago a vocês a Retrospectiva Literária do ano de 2017 :D

Em 2016 inaugurei maisoumenasmente a seção com as minhas obras lançadas — foi o ano em que eu deixei de ser somente um leitor e passei a ser um autor publicado. Agora oficializo: começarei sempre com as minhas obras lançadas no ano! Nesse, foram nada menos que cinco! E bem balanceadas em seus gêneros: duas de ficção realista — o romance Nefelibata ou O fotógrafo, e o conto Apreensão, que saiu pela revista Gueto e foi premiado na 27.ª edição do Prêmio Cataratas de Contos e Poesias —; uma de ficção científica — o conto Sob a sua árvore —; e duas de fantasia — os contos que saíram nas coletâneas dos sites Mitografias e Leitor Cabuloso, respectivamente E tudo vai ficar pior e Enquanto vagueio pelas cinzas do mundo.






No campo da leitura, eu também não poderia ter tido um ano mais feliz, porque eu simplesmente bati meu recorde de leitura anual de toda a minha vida! Foram 68 obras lidas — e, com toda a tranquilidade, afirmo que isso só foi possível por causa da aquisição do meu Kindle (primeiro, o básico; depois, o Paperwhite). Ele me possibilitou ler muito mais do que as possibilidades de carregar livros de papel permitiam, além de também me dar acesso a ótimas obras autopublicadas, inexistentes em formato físico. Assim sendo, vamos à lista das leituras de 2017:

  1. A Voz de Delirium: Ano 1, de André Monsev & Lucas Kircher;
  2. Ozob: Protocolo Molotov, de Leonel Caldela & Deive Pazos;
  3. Alerta de risco: Contos e perturbações,
  4. Deuses americanos (releitura), e
  5. Mitologia nórdica, de Neil Gaiman;
  6. Sinal e ruído, de Neil Gaiman & Dave McKean;
  7. Contos da taberna, e
  8. 2001: Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke;
  9. O vermelho e o negro, de Stendhal;
  10. O risonho cavalo do príncipe, e
  11. A estranha máquina extraviada, de José J. Veiga;
  12. O encontro marcado, de Fernando Sabino;
  13. Interface com o vampiro,
  14. Os dias da peste vol. 1, e
  15. De A a Z: Dicas para escritores, de Fábio Fernandes;
  16. Mundos paralelos, organizada por Felipe Sali;
  17. Zé Calabros na terra dos cornos, de Tiago Moreira;
  18. Memória da água, de Emmi Itäranta;
  19. Ficção de polpa vol. 1, organizada por Samir Machado de Machado;
  20. A hora e vez de Augusto Matraga, de João Guimarães Rosa;
  21. Um gato chamado Borges, de Vilto Reis;
  22. Areia nos dentes, de Antônio Xerxenesky;
  23. Mulheres fatais, organizada por Rô Mierling;
  24. Melhor seria nunca ter existido, de Daniel Pellizzari;
  25. A Torre Negra vol. IV: Mago e vidro, e
  26. Sobre a escrita, de Stephen King;
  27. Memorial do convento, de José Saramago;
  28. Extemporâneo, e
  29. Glamour, de Alexey Dodsworth;
  30. O império das formigas vol. 1: As formigas, de Bernard Werber;
  31. Teorema de Mabel, de Matheus Ferraz;
  32. Ouça a canção do vento / Pinball, 1973,
  33. Caçando carneiros, e
  34. Minha querida Sputnik, de Haruki Murakami;
  35. Louco: Fuga, de Rogério Coelho;
  36. The 42nd Street Band, de Renato Russo;
  37. O mago e o guerreiro, de Diogo Ramos;
  38. Wild cards vol. 1: O começo de tudo, editada e organizada por George R. R. Martin;
  39. Antologia Mitografias vol. 1: Mitos modernos, organizada por Leonardo Tremeschin, Andriolli Costa & Lucas Rafael Ferraz;
  40. Unicelular, de Tarsis Magellan;
  41. Orgulho e preconceito, de Jane Austen;
  42. Limbo, de Thiago d'Evecque;
  43. Picta mundi, de Gleice Couto;
  44. O jardim secreto, de Frances Hodgson Burnett;
  45. Na eternidade sempre é domingo, de Santiago Santos;
  46. A menina submersa, de Caitlín R. Kiernan;
  47. Sandokan & Bakunine, de Bruno Margo;
  48. A situação, de Jeff VanderMeer;
  49. Lobo de rua, de Jana P. Bianchi;
  50. As águas–vivas não sabem de si, de Aline Valek;
  51. Alétheia, de Soraya Coelho;
  52. O zen e a arte da escrita, de Ray Bradbury;
  53. Trabalho honesto, de Rodrigo van Kampen;
  54. O espadachim de carvão e as pontes de Puzur, de Affonso Solano;
  55. Origem, de Dan Brown;
  56. Realidades cabulosas: Ano 1, organizada por Lucas Rafael Ferraz & eu;
  57. Um berço de heras, de Anna Fagundes Martino;
  58. Welcome to Night Vale, de Joseph Fink & Jeffrey Cranor;
  59. As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky;
  60. Os cem melhores contos brasileiros do século, organizada por Italo Moriconi;
  61. revista Trasgo #04,
  62. revista Trasgo #07,
  63. revista Trasgo #09,
  64. revista Trasgo #11,
  65. revista Trasgo #12,
  66. revista Trasgo #13,
  67. revista Trasgo #14, e
  68. revista Trasgo #15, organizadas e editadas por Rodrigo van Kampen.
Então, sem perda de tempo, vamos às premiações do ano :D


O MELHOR LIVRO INTERNACIONAL DE 2017


Nossa, é impressionante como li poucos livros internacionais nesse ano...! Assim sendo, tive que decidir por uma releitura para ganhar esse prêmio — porque Deuses americanos é mesmo um livro muito muito foda; acho que é, afinal, o melhor do Neil Gaiman. Essa nova edição, então, é um primor: a textura da capa, a fonte utilizada, a nova tradução... Não tem como não amar :)


O MELHOR LIVRO NACIONAL DE 2017:


Rapaz, com tantas leituras nacionais nesse ano, foi difícil pra caramba escolher o “melhor"... Obras excelentes como Zé Calabros na terra dos cornos, Extemporâneo, Glamour e A Voz de Delirium: Ano 1 me deram dor de cabeça para escolher, então acabei me decidindo pela obra que mais mexeu com minhas emoções: Unicelular — tanto no deliciamento pela imersão no ambiente criado pelo autor, Tarsis Magellan, quanto no nervoso que me deu o desenrolar desse thriller de ficção científica, quanto pelo encantamento que me causou uma obra autopublicada tão esmerada quanto essa.


Partimos, então, para os destaques por gênero, excluindo–se as obras já premiadas.


O DESTAQUE DE FICÇÃO CIENTÍFICA DE 2017:


É difícil ter lido Alexey Dodsworth e não colocá–lo numa lista de “melhores do ano". Não li um livro dele que não tenha sido, no mínimo, ótimo — seja por uma editora, seja por outra, seja autopublicado. Extemporâneo é outra de suas obras ótimas, e acredito que meio central em sua produção, porque parece amarrar muitas das coisas escritas por ele. Em resumo, é um ótimo livro para começar a ler sua obra.

Como menção honrosa, o ótimo — e climático, e melancólico — Memória da água, que apresenta um futuro distópico original e incômodo pra cacete, onde a China domina o mundo e a água está cada vez mais escassa, controlada pelo governo, como não poderia deixar de ser.


O DESTAQUE DE FICÇÃO FANTÁSTICA DE 2017:


2017 foi o ano da autopublicação, e os destaques dessa categoria refletem isso. Zé Calabros na terra dos cornos é uma obra originalíssima de fantasia que se passa em uma terra que é uma versão do Nordeste brasileiro, com cangaceiros, coronéis e tudo o que a região tem direito. Contudo, ela integra outros elementos de outras culturas, como magos, dragões e gigantes, mas faz isso com muita naturalidade e com muita qualidade literária. É uma obra que tem tudo para despontar se — quando — for descoberta por uma editora grande. Estou ansioso pela continuação.

A menção honrosa é para outra ótima obra de Alexey Dodsworth, Glamour, dessa vez mais voltada para a fantasia urbana do que para a FC. Também integrada ao “Dodsverso", traz de volta a melhor personagem de Extemporâneo, a Cassandra.


O DESTAQUE DE FICÇÃO REALISTA OU REALISMO MÁGICO DE 2017:


Curiosa essa escolha. Murakami é um dos meus autores preferidos atualmente, e num ano em que li duas das maiores obras dele — Caçando carneiros e Minha querida Sputnik —, escolher justamente suas duas novelas de estreia e, ainda por cima, como menção honrosa... É que As vantagens de ser invisível é tão redondinho, tão bem escrito, tão gostosinho que, como, digamos, conjunto da obra, que não teve como não escolhê–lo como destaque. Além disso, Ouça a canção do vento / Pinball, 1973 tem um apelo muito mais emocional para mim do que suas obras mais famosas.


E, agora, A SURPRESA DO ANO DE 2017:


Duas obras nacionais como surpresas do ano! A obra em destaque, Ozob vol. 1: Protocolo Molotov, me surpreendeu de verdade. Claro que o autor principal da obra, Leonel Caldela, é o meu preferido autor de fantasia nacional, mas por ser uma derivação do Nerdcast especial de RPG, imaginei que pudesse seguir o exemplo da série Ruff Ghanor e ser dispensável como ela, mas acabei percebendo, com muita felicidade, que não, que o livro do Ozob tem muita qualidade como literatura cyberpunk, desde que você saiba ligar o quesefodômetro e curtir as loucuras e referências da aventura criada pelo Deive Pazos, o Azaghal.

Como menção honrosa, a ótima obra de fantasia urbana com toques de ficção científica Trabalho honesto, do Rodrigo van Kampen, criador e responsável pela excelente revista Trasgo, e aqui mostrando que é também um ótimo escritor e criador de mundos.


E então a inevitável DECEPÇÃO DO ANO DE 2017:


Nunca imaginei que eu teria Gaiman como a decepção do ano e King como menção honrosa, mas o monstro da expectativa é mesmo uma merda, né? Eu esperava que Mitologia nórdica fosse um livro do Neil Gaiman, mas não é: poderia ter sido o livro de qualquer escritor reescrevendo, muito mais que recontando, as histórias já conhecidas dessa mitologia, e nada mais do que isso. Sem surpresas, sem novidades, sem o jeitinho Gaiman de contar. Foi o primeiro livro dele que abandonei na vida. Já o Mago e vidro, volume 4 de A Torre Negra, poderia ter sido um livro bem menos maçante se o flashback fosse menos que praticamente o livro inteiro. Sério, devem ser umas 400 páginas ou mais de flashback — ou seja: uma história da qual já sabemos o final. Se Roland tivesse contado, como fez, a história ao redor de uma fogueira, num momento crucial do livro, mas em diálogo, teria tido o mesmíssimo efeito.


Agora, O PIOR LIVRO DO ANO DE 2017:


Não foi dessa vez que os escritores top do Wattpad me convenceram, pelos motivos que eu expliquei muito bem nessa resenha. O outro, também uma coletânea de contos, também é fraquinho, e esse eu nem me motivei a ler até o final.


Agora, falando de coisa boa, O MELHOR LIVRO DE CONTOS DE 2017:


É inevitável escolher essa fantástica antologia organizada pelo Italo Moriconi com os cem melhores contos brasileiros do século XX; realmente é de se imaginar que o sumo da literatura mainstream está ali. Não estão muitos bons contos da ficção fantástica, é claro, mas não era esse o foco da seleção. Como menção honrosa, mais uma excelente antologia do Neil Gaiman. Smoke and mirrors esteve na premiação do ano passado, Alerta de risco está nesse, e aposto que no ano em que houver antologia nova estará também :)


Então, dentre esses, vou formular O TOP 10 DE 2017:


  1. Deuses americanos, de Neil Gaiman
  2. Unicelular, de Tarsis Magellan
  3. Os cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Italo Moriconi
  4. Zé Calabros na terra dos cornos, de Tiago Moreira
  5. Extemporâneo, de Alexey Dodsworth
  6. Alerta de risco: Contos e perturbações, de Neil Gaiman
  7. Glamour, de Alexey Dodsworth
  8. As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky
  9. Ouça a canção do vento / Pinball, 1973, de Haruki Murakami
  10. Ozob vol. 1: Protocolo Molotov, de Leonel Caldela & Deive Pazos


Mas como assim, Rahmati, Ozob é melhor do que Orgulho e preconceito, ou os livros do Murakami, ou que tantos outros lidos nesse ano?! A questão é: eu não disse que esses livros são ruins. Muito menos que não são bons. São ótimos. O negócio é que esses 10 aí são os livros que mais me divertiram, dado o que eu gosto de ler. Se perguntarem qual é melhor: Ozob ou Orgulho e preconceito, eu vou dizer que certamente o segundo é literariamente mais relevante, e provavelmente muito melhor, mas o livro capa dura que está na minha estante é o primeiro :)

Assim sendo, se você não concorda com minhas escolhas, azar o seu e feliz 2018 :D