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segunda-feira, 2 de abril de 2018

Leituras de Março



Embora eu não tenha lido tanto quanto o mês anterior, em que eu estava de férias, creio que foi um mês bom… Não consegui manter meu padrão de 1 livro por semana, mas não posso reclamar, porque estou lendo simultaneamente alguns livros de contos ou crônicas, que vão demorar um pouco a dar as caras por aqui… Assim sendo, vamos aos comentários das leituras do mês.


ROMANCES:





O primo Basílio entrou para o rol das obras que me surpreenderam porque eu nada delas esperava. O escritor, o português Eça de Queirós, faz jus à fama que tem: é um excelente escritor e igualmente talentoso contador de histórias. Inclusive, a trama do livro é mais “moderna" do que eu imaginava; cheia de reviravoltas, de detalhes dos bastidores da sociedade da época que eu julgava serem característicos do século XX, pelo menos, como neste trecho… E com um final bastante satisfatório — ao menos para o meu gosto. Um adendo sobre a modernidade da história: imagino que seja devido a Portugal ser um país bem mais velho que o Brasil, e, por isso, certos costumes que aqui pareceriam “um absurdo" à nossa sociedade conservadora são por lá tão anteriores… Ou não; pode ser que tais costumes somente não eram tão descritos em nossa literatura da época. Preciso estudar melhor essa questão. De qualquer forma, é um excelente livro. Achei melhor que o outro clássico que li recentemente, o Orgulho e preconceito. E essa capa que coloquei não é a da versão que eu li, é só porque ela é a mais bonita que encontrei. Não coloquei a da que li porque foi em um e–book de antologia das obras do Eça, a Obra completa de Eça de Queirós vol. I: Romances 1870–1880.




Eu, geralmente, fujo de livros quando há um hype sobre eles; assim, esperei a poeira baixar e as críticas se tornarem mais imparciais para decidir se leria ou não o Caixa de pássaros do escritor Josh Malerman. Como os leitores ainda estavam sendo favoráveis, resolvi encarar a tarefa e não me arrependi. No romance de suspense / terror psicológico, alguma coisa está deixando as pessoas loucas — alguma coisa que elas veem. Assim, todos começam a tapar as janelas e só sair nas ruas vendadas. Claro que isso, ao longo do tempo, destrói com qualquer possibilidade de sociedade organizada — muito a exemplo de Ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Nesse livro, acompanhamos a mãe de duas crianças, e, em tempo real e em flashback, descobrimos o que ela está fazendo e como as coisas foram ficar daquele jeito — ou melhor, a visão dela de como as coisas degringolaram, o que, para mim, acaba sendo mais interessante. Mais duas coisas coisas me agradaram nesse livro: a escrita do autor, que, apesar de ser meramente uma ferramente para narrar a história, é simples e de fácil leitura, tornando a imersão fácil e prazerosa. A outra coisa que me agradou foi a escolha do autor de não mostrar, não explicar nada, mais ou menos como seria com qualquer um de nós se passássemos por algo como o que aconteceu ali. Não é o melhor livro de terror (ou suspense, sei lá) que eu li, mas fiquei, sim, angustiado em alguns momentos, e valeu muito a leitura.




Finalmente li esse clássico! Apesar de Fundação, do Isaac Asimov, não poder ser chamado de emocionante, para mim foi um livro muito interessante. Na história, é narrada a criação da Fundação, uma instituição destinada a minimizar o impacto de uma grande era negra da cultura a que o Império Galáctico fatalmente enfrentará. Essa grande crise foi “profetizada" — na verdade calculada pelo psico–historiador Hari Seldon, uma espécie de super–estatístico que, através de sua ciência, pôde prever com uma precisão assustadora o futuro da espécie humana, calculando inclusive variáveis psicológicas (daí o nome psico–historiador) na equação. Eu disse que o livro não é emocionante porque ele não se prende a personagens centrais; ao contrário, ele mostra três grandes momentos da Fundação, literalmente firmando suas bases para os próximos livros da trilogia. Certamente vou ler os seguintes, mas não estou com aquela pressa, justamente porque me pareceu mais uma leitura para conhecer um clássico completamente do que realmente por encantamento com a história.


CONTOS:




Obsolescência, do Alec Silva: Apesar da capa e da ideia do conto serem boas, eu tenho ressalvas em relação a ele. Se você, leitor, acompanha o blog há algum tempo, pode ter percebido que eu já estou relativamente cansado de distopias. Mês passado mesmo li uma que gostei, por isso o “relativamente”; não fechei a porta para elas. A questão é que, para mim, as distopias têm que 1. fazerem sentido; 2. não serem exageradas demais; e 3. não serem inocentes (às vezes esse item se mistura com o anterior). Enquanto o conto é muito bom no item 1, porque trata de uma sociedade onde todo mundo é obrigado a consumir, tendo o governo sido substituído pelo “mercado”, seja lá o que isso significar, e que aqui tem uma representação indissociável do governo regulamentador, gerando uma mescla de conceitos interessante , ele peca no item dois, e isso quebrou minha imersão, por ter — a meu ver — quebrado a verossimilhança (estou me referindo aos açougueiros, para quem já leu). Exageros desse porte me parecem demais numa sociedade civilizada, resvalando perigosamente no item 3… Além disso, o conto usa muito do “as you know, Bob” — o tropo do personagem que explica para outro algo que ele já sabe, mas que na verdade está explicando é para o leitor/expectador.

O Mercador de Sonhos, do M. M. Schweitzer: Essa é a minha segunda incursão ao universo de Morserus, e me deparei com mais um conto interessante! Apesar de eu ter esperado aprender mais sobre esse mundo fantástico, onde os humanos não existem e os animais, antropomorfizados, assumem seus lugares, o que se encontra nesse conto é a aventura ao subconsciente de um único personagem — Ollie, um porco de 15 anos de idade e cheio de traumas e sonhos, como qualquer adolescente. Acaba sendo uma fábula muito criativa e bem escrita, descontados os errinhos de revisão. No entanto, parece–me que o autor teve a ideia para uma história “genérica” — não no sentido ruim, mas no sentido de uma história que poderia se passar com qualquer pessoa — e decidiu ambientá–la também em seu universo. Isso não traz qualquer problema; muito pelo contrário — só reforça ainda mais meu desejo de aprender mais sobre esse mundo. (Aliás, pensando aqui sobre esse conto e sobre o anterior que li, o Banquete para fantasmas… Será que é assim que o autor vai apresentar seu mundo, em todos os contos — pequenos drops, histórias pontuais que mostram só uma peça do quebra–cabeças de cada vez…? Interessante se for…)

sexta-feira, 16 de março de 2018

Um trecho marcante de Eça de Queirós


E deleitava–se nas recordações do colégio! Que bom tempo! 
— Lembras–te quando estivemos de mal? 
Luísa não se lembrava… 
— Por tu teres dado um beijo na Teresa, que era o meu sentimento — disse Leopoldina. 
Puseram–se a falar dos sentimentos. Leopoldina tivera quatro; a mais bonita era a Joaninha, a Freitas. Que olhos! E que benfeita! Tinha–lhe feito a corte um mês!… 
— Tolices! — disse Luísa corando um pouco. 
— Tolices! Por quê? 
Ai! era sempre com saudade que falava dos sentimentos. Tinham sido as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciúmes! Que delírio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida! 
— Nunca — exclamou — nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti pela Joaninha!… Pois pode crer…

Eça de Queirós – O primo Basílio (1878!)

sexta-feira, 2 de março de 2018

Primeiros contos da “Some of the best from tor.com 2016 edition”


Comecei há algum tempo a ler os contos da antologia de contos de 2016 lançados separadamente pela tor.com, mas como leio devagar as antologias e coletâneas — gosto de digerir os contos antes de partir para o próximo —, vou falar aqui dos primeiros da coletânea.

Mas, antes, uma constatação: eu ADORO essas capas dos contos da Tor :D


Começamos pelo conto Clover, da Charlie Jane Anders. Esse conto é muito interessante: conta a história do casal Anwar e Joe através dos olhos de Berkley, um gato que é dado aos dois um dia depois de se casarem, com a promessa de que teriam nove anos de sorte desde então. Após esse período, Berkley vê o casamento dos donos entrar em colapso e, para piorar tudo, a chamada de uma nova moradora, a gatinha do título, Clover, para disputar o seu espaço. No entanto, Clover alega já ter sido uma humana. É um conto muito bem escrito — para os padrões de quem está começando a ler em inglês e pode avaliar pouco isso — e muito bem ritmado em sua trama.

* * *


The art of space travel, da Nina Allan: Um conto mais longo e excelente. Narra, em primeira pessoa, a história de Emily. Ela trabalha em um hotel que está para receber, como hóspedes, dois astronautas que estão indo para Marte, em uma viagem só de ida. É a segunda tentativa de fazer isso, porque a nave espacial da primeira sofreu um acidente e não chegou ao destino. Além disso, a mãe de Emily sofre de Alzheimer, e guarda o mistério de quem é o seu pai — e tudo está interligado, de uma forma ou de outra.

* * * 


The destroyer, da Tara Isabella Burton: Aqui conhecemos a história de uma menina nascida por geração espontânea através das artes de uma cientista meio maga, que passa a trabalhar para o César de uma Roma retrofuturista (pelo que entendi, hehe). Essa cientista transforma a filha, clone dela mesma, cada vez mais em uma androide, substituindo aos poucos suas partes orgânicas, e, refletindo o modo como trata a filha — nada nunca está bom o suficiente — ela passa a ambicionar cada vez mais com suas invenções, ao ponto de mudar o mundo. Pelo jeito essa coletânea só vai ter contos ótimos.

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Traumphysik, da Monica Byrne: A personagem principal é uma cientista militar que é mandada para um atol, durante a Segunda Guerra Mundial. Lá, ela começa a desenvolver um estudo das leis da física dentro do mundo dos sonhos — por isso traumphysik, em alemão (o marido dela é alemão) ou dream physics: física dos sonhos. É um conto maluco, como deve ser para falar de sonhos, e o final é inesperado. Muito bom também.

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The high lonesome frontier, da Rebecca Campbell: Para onde a água corre? Esse é o título da, digamos, música–tema do conto, inspirada por descobertas da ciência, e esse conto é a história de sua composição, perdida no tempo, passando por todas as suas regravações e as impressões e/ou modificações que a música trouxe aos ouvintes ao longo do tempo, de 1902 até 2068. É uma narrativa fragmentada e muito interessante. Embora não seja unanimidade entre os leitores, eu curti bastante esse conto.

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Lullaby for a lost world, da Aliette de Bodard: Esse foi o conto que eu menos gostei até agora. Escrito em segunda pessoa, ele mostra a história de uma menina que foi morta por um feiticeiro, dono de uma mansão, e enterrada nos fundos da propriedade. Isso parece fazer parte do ritual que lhe traz seus poderes, inclusive, e a menina não é sua única vítima. Apesar de não ser um conto ruim, de forma alguma, seu azar é vir após os anteriores; é muito simples se comparado a eles.

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Bom, é isso aí — esse foi o primeiro dos posts falando dos contos dessa antologia. Se você consegue ler em inglês, recomendo que compre esse e–book, especialmente porque ele está de graça na Amazon. A editora Tor faz a antologia dos contos publicados desde 2013, e esse ano, 2016, é o único que não está sendo cobrado, então aproveite enquanto pode.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Leituras de Fevereiro


Esse mês foi um mês prolífico, haha! É que eu estava de férias, e como não viajei, aproveitei para ler o máximo que podia :) — e, na verdade, tem bastante coisa porque li alguns contos soltos também, e, como não falo deles nas retrospectivas anuais, vou aproveitar para divulgá–los por aqui.


Vamos às leituras do mês, então.


LIVROS:


E, finalmente, li esse clássico! Do autor, já tinha lido A revolução dos bichos, então sabia da qualidade da prosa do autor, mas, por qualquer motivo, estava postergando a leitura desse 1984. Honestamente, eu não sei o que esperava desse romance, mas acho que não esperava algo tão atual assim… Pode ser que em outros países o livro funcione mais como um aviso, mas, aqui no Brasil, é como se fosse uma mera extrapolação do que já está acontecendo… O emburrecimento das massas para a tomada do controle… A vigilância quanto às práticas — se não por parte do governo, por parte de seus “minions”… A instauração de um grande líder como salvador do povo… A lavagem cerebral como medida mais eficiente para que não se questione o sistema, e sim o veja como a única solução possível. Acabou sendo um livro que me deixou mais triste do que eu esperava. Uma coisa que eu não esperava era que houvesse romance no livro, e ele foi tão bem conduzido e realista que acaba me fazendo admirar ainda mais o Orwell enquanto escritor do que antes. A capa dessa edição é meio estranha, mas sei que isso é uma opinião que envolve gosto — logo, subjetiva.

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Primeiramente, preciso falar: que capa LINDA esse livro tem! Sério, demais mesmo! E sabem o que é melhor? A qualidade dos três contos que o compõem acompanha a qualidade da capa :D

O desejo de ser como um rio, que dá título ao livro, é um conto profundo e melancólico, e descobrir o que significa o título é um deleite a mais. A escrita da autora é muito precisa, e passa muito bem tanto as cenas quanto os sentimentos que quer causar no leitor. Foi um conto que mexeu muito comigo, justamente por causa do tema — a morte. Quem me conhece sabe que a finitude da vida é um tema que me incomoda muito. O segundo conto, Amigas infláveis, é muito divertido, e com um toque de ironia que é delicioso. Mais uma vez, a escrita é precisa e gostosa, e as situações apresentadas na trama seriam “apenas” muito divertidas, se não trouxessem uma reflexão tocante sobre o envelhecimento e a solidão. Agora, no último, A mulher na bacia de água e sal, eu confesso que fiquei perdido. A mensagem do conto não é difícil de ser apreendida, mas acho que precisa de mais uma leitura para sua “trama” ser apreendida melhor…

De qualquer forma, ficou muito forte a vontade de ler o livro de novo para absorver melhor os detalhes dos três contos, porque mesmo no mais simples deles, as “pequenas coisas” são inúmeras. A escrita da Claudia Dugim me parece tão rica que, quanto mais for relida, mais forte fica.

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Confesso que já fazia um bom tempo que um livro de ficção científica não me deixava “boiando” na explicação da ciência nele usada — ou seja: já fazia um bom tempo que eu não lia um livro de FC realmente inovador, então. Não que o tema desse aqui o seja: é um tema repetido à exaustão (e quais não são?). O que é diferente é todo o resto — a ambientação; o modo como o “problema” é apresentado; a imaginação em relação às… inovações biológicas, vamos dizer assim, relacionadas ao problema dos três corpos; a tecnologia usada pelo “vilão”… São bastantes coisas que me surpreenderam positivamente nesse livro, e só não posso dar mais detalhes para não revelar os segredos da trama — e descobri–los é um dos maiores atrativos da leitura desse romance do chinês Cixin Liu. Que bom que as editoras estão traduzindo mais obras de FC contemporâneas, e espero que isso não pare nunca mais. (E também espero que a editora publique a última das duas continuações, que o autor menciona no posfácio — a primeira delas já foi publicada, chamada A floresta sombria —, porque a história já me conquistou.)

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Autoridade é o segundo livro da trilogia Comando Sul e continuação direta de Aniquilação, do autor Jeff VanderMeer. O primeiro livro, como vocês podem ver aqui, foi escolhido como o melhor livro internacional que li em 2016. Autoridade, no entanto, muda bastante o foco da narrativa. Se em Aniquilação o foco é na 12.ª expedição à Área X, aqui acompanhamos o personagem de codinome “Controle”, o novo diretor do Comando Sul — a agência paragovernamental que tenta entender a Área X. O problema é que ele meio que “cai de paraquedas” na história toda, e, além de ter que desvendar o mistério da área anômala, tem que prosseguir com a investigação iniciada pela antiga diretora — não vou dizer o porquê para não dar spoiler —, conhecer os funcionários do Comando Sul, interrogar uma das sobreviventes da 12.ª expedição… e reportar suas atividades e o que descobriu — o que, praticamente, nem ele consegue resumir.

É um livro bem mais lento do que o anterior, mas o desenvolvimento da trama é essencial para absorver o nível de terror dos momentos finais do romance. Absorver, não entender — porque o terror em Autoridade acontece num nível tão absoluto que deixa a conclusão da história tão difícil de especular que, para mim, literalmente qualquer coisa será possível a partir de agora. É com o nível de expectativa no máximo que vou iniciar a leitura de Aceitação, o terceiro volume — e vou fazer isso imediatamente, aproveitando que tenho os três lindos volumes físicos que compõem a história.

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A máquina de contar histórias é a primeira coisa que li do autor Maurício Gomyde. Provavelmente não vou ler nada mais. Não que o livro seja ruim: é bom. É só que não é para mim. Claro que chorei no final, porque sou uma moleza de uma manteiga derretida, mas achei a história clichêzenta até falar chegar, a escrita brega, o personagem principal que parece o tiozão do pavê (o que não quer dizer que ele seja mal construído, ou qualquer das outras personagens), a história cheia de lições de moral… Enfim, não é mesmo para mim.

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E esses dois e–books estão juntos porque foram os abandonos do mês — e, ambos, embora de gêneros diferentes, pelo mesmo motivo: por causa dos clichês. Até alguém se machucar é uma novela de romance erótico, e com ela aconteceu a mesma coisa de todas as vezes em que eu tentei dar uma chance para esse gênero: tudo é pretexto para as pessoas transarem. Olharam um pro outro? Sexo. Trombaram na rua? Sexo. Duelaram até a morte num pântano mortal? Sexo. Ainda se tivesse trama… Agora a outra novela, Os cavaleiros do inverno, até que estava indo bem: a autora escreve bem (as duas escrevem), a história parecia promissora, começando com um mistério… mas, quando vi que a protagonista relutante adolescente ia descobrir ser, na verdade, uma bruxa herdeira de um trono em um reino mágico, cuja verdade lhe fora ocultada possivelmente para que fosse protegida… ah, já deu pra entender, né? Desculpem, mas ambas as histórias não são pra mim.

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CONTOS:





Banquete para fantasmas, do M. M. Schweitzer: Já tinha esse e–book há um tempo no meu Kindle, ainda na época que eu tinha só o aplicativo, e, apesar de ter achado a premissa interessante, não tinha me animado a ler ainda. Acontece que, lida, a história — e o mundo onde ela se passa — é muito mais interessante do que parecia! No mundo criado — Morserus — não existem humanos; os animais é que são antropomorfizados. Eles tem uma civilização essencialmente semelhante à nossa, mas a magia tem espaço nela. Nessa história, um (ao que parece) investigador sobrenatural é convocado para resolver o mistério de uma ricaça, onde fantasmas se reúnem à noite para banquetearem na sala de refeições. O que eu mais gostei, contudo, foi o clima sério, decadentista — poderia dizer noir — do conto, e, ainda que o e–book apresente erros de revisão, o tom do mundo me motivou a procurar mais histórias nele passadas. A parte boa é que todos os contos estão de graça na Amazon. O próximo que vou ler chama–se O mercador de sonhos.

La gran nevada, do Holden Centeno: Esse conto (em espanhol) sobre o Natal me agradou bastante. O protagonista conta uma história de um Natal ocorrido há muitos anos, no ano da tal grande nevasca. É um conto intimista, bastante emocional e bem escrito o suficiente para que nos importemos com os personagens. Na trama, o protagonista vai passar o feriado com os tios, em sua cabana afastada, e descobre o porquê de ela ser toda cercada por salgueiros–chorões — a árvore que está na capa, que, aliás, representa muito bem os elementos da história criada pelo autor. Essas árvores, com o desenrolar da trama, levam a um desfecho emocionalmente devastador, muito tocante mesmo, daqueles que dão um nó na garganta, mas eu não posso revelar mais do que isso sem estragar a experiência de quem vai ler. (E, se você souber só um pouquinho de espanhol, acho que já dá pra ler de boa; se agarra nas semelhanças com o português, pega o sentido geral da frase e toca pra frente :P) Quando eu o comprei na Amazon estava de graça; se ainda estiver, corre lá que vale muito a pena.

A moldura vazia, do Bruno Martins Soares: é um conto sobre o buraco que a morte de uma pessoa deixa na vida dos que o cercam. É um conto melancólico e por vezes brutal, alegórico mas realista, que evoca aquela sensação que às vezes temos de estarmos vendo nossa vida com um olhar de fora da cena, de parecer que perdemos o controle dos nossos passos… É um conto que retrata bem um sentimento que é familiar a todos que perderam alguém — o de ter um quadro chamativo, que ocupa um grande lugar na parede, mas que não retrata mais nada.

If at first…, do Peter F. Hamilton: uma história muito boa sobre viagem no tempo. Um cara é preso por ter invadido o laboratório de uma empresa de pesquisas de um milionário do ramo — só que as coisas não são tão simples: ele diz estar atrás dos planos de uma máquina do tempo que esse milionário estaria desenvolvendo. A princípio, os policiais que o estão interrogando não acreditam em nada do que ele diz, obviamente, mas ele acaba conseguindo uma única chance de provar que diz a verdade… e é aí que as coisas dão errado. É um conto curto, e vale muito a pena — principalmente porque está de graça na Amazon. Se você consegue ler em inglês, não perca tempo. (O e–book tem também um trecho de um romance do autor, que eu não li.)

Metastasis, do Jacques Barcia: Apesar de ser de um autor brasileiro, é um conto escrito em inglês. É uma história de fantasia, embora não seja — é como se fosse uma metáfora. A trama é simples: uma quimera descobre que tem câncer, e decide percorrer o mundo em busca da cura. No entanto, entre lutas e perdas, ela descobre que o mundo não é um lugar fácil, e que nele você acaba confrontado com verdades difíceis de aceitar. Se você for ler, pode ser que ache o conto confuso no começo, mas prometo que no final as coisas se amarram. Muito bom mesmo; senti um toque de Gaiman na narrativa, e isso só pode ser bom.

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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Meu Mapa de Influências comentado


Como uma ideia que surgiu no Facebook — e, logo, que todo mundo repetiu —, eu também não podia ficar de fora: criei meu próprio mapa de influências enquanto escritor.

No entanto, gostaria de comentar mais sobre cada um dos autores mencionados e como eles me influenciaram.


Quando — para quem é escritor — chegamos àquele famoso momento, “quero escrever assim”, é, via de regra, porque nos deparamos com obras que nos tocam profundamente. Podemos dividir, ainda, essas obras em dois grupos: a dos escritores que nos encantam, e a dos mundos que nos encantam. Ou dizemos “quero escrever assim” ou “quero criar um mundo assim”. É, precisamente, nesses dois grupos que estão as quatro pessoas que ocupam os maiores quadros nessa montagem: Neil Gaiman, Stephen King, Hironobu Sakaguchi e J. R. R. Tolkien.

Primeiramente, Neil Gaiman. A obra dele condensa ambos os encantamentos — me encanta enquanto escritor, por dizer tanto com tão pouco, por criar climas e trazer à tona tantos sentimentos com frases simples, fugindo do rebuscamento, precisas e diretas, e ainda assim poéticas; e me encanta enquanto criador de mundos, porque o que ele fez em Deuses americanos, Os filhos de Anansi e O oceano no fim do caminho — suas obras que se passam em seu mundo de deuses — inspiraram boa parte da minha produção. Um conto meu que é totalmente inspirado na obra de Gaiman é o Nil.

Stephen King me ensinou a construir personagens. Pode–se falar o que for de suas obras (o que, na maioria das vezes, eu não concordo), mas não se pode falar que ele não é genial na construção de seus personagens. Com ele, eu percebi que todos os personagens têm uma opinião formada em relação a absolutamente cada aspecto de suas vidas, e isso afeta sua maneira de ser. Que os aspectos da vida de cada um forma o que eles são. Na obra de Stephen King, é facílimo perceber que, se os personagens envolvidos em suas tramas fossem outros, essas mesmas tramas iriam por caminhos muitíssimo diferentes. São os personagens que criam as tramas, e não o oposto. Foi por causa dele que fiz o que fiz em O arquivo dos sonhos perdidos, e que é criticado por algumas pessoas: pus personagens “comuns” numa trama épica, e o modo como eles são — ou não são — altera totalmente o que poderia se esperar da história.

Hironobu Sakaguchi entra no outro campo — o dos construtores de mundos. Para quem não conhece, ele é o criador da série Final fantasy, e essa série é a maior responsável por eu misturar magia e tecnologia em minhas obras — especialmente o que ele fez em seus “episódios” VII e XII. Sakaguchi, ao criar esses mundos, mostrou como magia e tecnologia podiam coexistir e se completar, e isso abriu minha mente para novas possibilidades. Isso, combinado com o que J. R. R. Tolkien fez em O senhor dos anéis, e que dispensa totalmente apresentações e exaltações, me fez perceber que sim, eu podia criar um mundo que juntasse tudo o que eu gosto, desde que, para isso, ele tivesse coerência — o que, no meu modo de ver, foi onde esses dois mestres mais brilharam: dar coerência para mundos totalmente fantásticos. (Nesse aspecto, mas em menor monta, coloco também o Shigeru Miyamoto, e especialmente pelo que ele fez em The legend of Zelda. Boa parte da estrutura de O arquivo é inspirada em Zelda, que me marcou muito graças à maestria de Miyamoto em criar aventuras e sub–aventuras que acabam se ligando em uma trama maior. É uma influência muito mais quanto ao “clima” da aventura, baseada em sensações, do que em elementos de trama em si — mas que não podia ser negligenciada.)

Os outros, com as fotos menores, podem ser divididos entre os que tiveram influência no início da minha escrita — ou para que eu a iniciasse, por assim dizer —, e os que estão me influenciando por agora. Dos primeiros, que me motivaram a escrever e criar histórias, estão Jules Verne e Leonel Caldela. Minha adolescência e início da vida adulta foram lendo as obras de Verne, e, mais uma vez, aquele tom de aventura e descoberta de seus livros me encantavam enormemente, e isso se refletiu n'O arquivo. Já o Caldela foi diretamente responsável por esse livro de fato existir. Através de seu romance O inimigo do mundo eu percebi que, sim, um mundo fantástico poderia ser transformado em uma história “realista” e brutal, e, durante a escrita, eu fraquejei, como o fazem muitos autores iniciantes. No finado Orkut, então, eu perguntei a ele como ele conseguiu realmente levar a cabo aquela tarefa ingrata de escrever um romance longo, e, ao contrário da minha expectativa, ele respondeu — e ainda me deu um puta incentivo para continuar. Imagino que, se ele não o tivesse feito, talvez eu não fosse um escritor hoje em dia…

Os que faltaram são os que estão me influenciando atualmente. De forma parecida com o King, o Ray Bradbury também me influencia a voltar meus olhos durante a escrita para os personagens — e ele, também como Gaiman, me mostra que pode haver poesia no modo de escrever. No entanto, enquanto o Gaiman me pauta a forma de criar fantasia e o King a de criar histórias realistas ou de suspense, o Bradbury é meu maior exemplo no campo da ficção científica. Ele me mostra que esse gênero deve ir muito além dos tecnicismos e focar no que realmente importa: as pessoas. Um conto curto em que eu aplico isso é o A distância e a espera. Já o Douglas Adams foi quem me ensinou a colocar ironia, cinismo e sarcasmo de maneira inteligente em meus textos, e que esse tipo de humor é muito melhor do que a comédia escrachada, que não vai bem na literatura — e que rir de si mesmo é a melhor maneira de rir da humanidade. Além, é claro, de usar o nonsense para compôr o humor causado pelo estranhamento — e que fiz no conto Aquecimento global (Em fogo alto). O Haruki Murakami foi o penúltimo a ter adentrado esse rol de escritores, e é um dos meus preferidos da atualidade. Existem outros preferidos que não entraram na lista de influências, e por quê? Porque Murakami me ensinou algo que nenhum dos outros pôde: a ter calma para contar minhas histórias. A dar atenção a pequenos detalhes do cotidiano, a sentimentos, a impressões, a eventos banais e que acabam influenciando um personagem muito mais do que parece. E, também, além disso, a incluir eventos esdrúxulos em minhas histórias fazendo–os parecer perfeitamente banais e corriqueiros, hehe. Talvez o meu conto que mais reflita isso seja o Into blue. E, por último, o cineasta David Lynch, que merece um parágrafo próprio.

Existem modos e modos de se contar histórias. Existem jornadas do heróis, existem narrativas epistolares, existem outros tipos de storytelling… e existem as colchas de retalhos de Lynch. Assistir a um filme dele não é fácil, mas é recompensador. Bom, talvez não seja recompensador na primeira assistida, haha, mas se você persistir e revê–lo, talvez mais de uma vez, as coisas começam a fazer sentido… ou não! Mas a intenção de Lynch nunca foi a tradicional de passar uma mensagem clara; pelo contrário, ele espera que o expectador construa sua própria versão dos fatos, e entenda a história de sua própria maneira. Tudo bem que eu acho que ele passa um tanto da conta às vezes, hehe, mas o que ele me ensinou é que existem outras maneiras de contar as histórias, e, especialmente, maneiras que exijam atenção, reflexão e o raciocínio daquele que está consumindo sua história! Fiz isso em minha última obra publicada, o conto Sob a sua árvore, e estou fazendo no romance que estou escrevendo, totalmente diferente de qualquer outra coisa que eu já publiquei. Nessas duas obras, se o leitor não prestar atenção e raciocinar sobre o que está lendo, pode ter certeza de que chegará ao final com um gosto estranho na boca. E, arrisco dizer, que esse modo de contar histórias irá pautar boa parte da minha produção de agora em diante…

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Leituras de Janeiro


Vou tentar fazer uma coisa nova: postagens mensais, falando dos livros que eu li durante o mês. Tenho sentido necessidade de falar de mais livros do que acabo falando nas retrospectivas anuais, tanto bem quanto mal, haha, e então vou ver se isso dá certo :P

Vamos então às minhas leituras de janeiro de 2018!


Bom, do Estação Perdido eu acabei de falar nessa postagem. É, simplesmente, um dos melhores livros de fantasia — ou new weird, como se considera — que li em minha vida. Li em e–book, mas esse eu vou querer ter na estante, ao lado de A cidade & A cidade, também do China Miéville, que eu já tenho. Compensa cada centavo que se pagar nele (sorte que eu paguei menos de R$ 10, numa promoção na Amazon :P)


Eu estava esperando muito desse A misteriosa morte de Miguela de Alcazar, do Lourenço Cazarré, mas a decepção foi total. Minha expectativa era em parte porque gosto bastante de livros policiais, e em parte por causa do tanto de elogios que li sobre a obra. O que acontece é o seguinte: um jornalista é enviado para um hotel em Brasília para cobrir um evento que reunirá os maiores autores de literatura policial do mundo — só que um deles é assassinado, e cabe ao protagonista ajudar nas investigações. O problema é que o livro é mais um livro de comédia do que policial — e, a meu ver, numa versão pobre do que Jô Soares faz em suas obras. Os autores famosos da trama são versões debochadas de autores reais — como a Águeda Christine, o Georges Sim Et Non e o chinês Foo Lee Shi Man (que trocadilho horrível) —, e a única coisa que me fez rir foi o fato de cada um deles ter aprendido a falar em português, mas cada um com um sotaque diferente — mineirês, nordestino, gauchesco… De resto, as situações e piadas me deram vergonha alheia, e abandonei o livro na metade. Li na versão física, e me arrependo dos R$ 10 que paguei nele. A única coisa legal é a capa, texturizada e criativa.


O fim do mundo é um conto satírico sobre, bem, o fim do mundo — dessa vez por causa de um cometa. Claro que não é para ser “levado a sério”, mesmo porque ele é mais uma sátira à sociedade da época do que, propriamente, uma história de fantasia ou ficção científica. A graça dele é exatamente usar esse tema, tendo em vista ter sido publicado em 1857. Sim, você leu certo — mil OITOCENTOS e cinquenta e sete. E, se você ainda não reparou, é uma história de Joaquim Manuel de Macedo, aquele mesmo, que escreveu A moreninha. Essa versão que li é em e–book, da editora EX!, e traz uns extras bem legais, além dessa ótima capa. Vale conferir.


O Haruki Murakami já é um dos meus autores preferidos, e O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação só prova que tudo o que ele escreve merece ser lido. Li esse em e–book, mas dá uma vontade imensa (quando eu tiver espaço) de comprar todas essas edições primorosas da editora Alfaguara para tê–las ali, lado a lado, ostentação pura :) Os personagens são cativantes, a trama é boa como qualquer outra do japonês, o ritmo e o clima da narrativa são imersivos e transportam você para o local — mas isso já era totalmente esperado, sendo uma obra do mestre Murakami. Vai ser difícil, após ler todas as obras dele, montar um top 5… A capa, apesar de simples, representa bem a história, apesar de isso não ser nada claro antes de o livro ser lido :)


E, por fim, a edição 16 da revista Trasgo, editada e organizada e encabeçada pelo Rodrigo van Kampen. Dessa vez, eu destaco os contos O estranho caso dos professores que assobiavam, do Leonardo Maran Neiva, o Revoluções, da Vimala Ananda Jay (que eu conheci pessoalmente, junto ao Rodrigo, no lançamento do livro Trasgo: Ano 1), e o Mylène, da Anna Fagundes Martino (A forma da água, é você…? Olha o Del Toro se inspirando na Anna; melhor checar isso aí :P) Os outros contos, a meu ver, não trouxeram nada de novo, sendo até meio chatinhos. A capa é linda, do sempre ótimo ilustrador Jean Milezzi, mas, quanto aos 3 outros contos não mencionados, acho difícil — ou fico preocupado em — imaginar que tenham sido os melhores dentre as dezenas de contos que os editores recebem a cada edição…


Enfim; é isso aí — essas são as minhas leituras do mês de Janeiro. Espero conseguir fazer mensalmente esses posts, porque realmente é muito bom falar algo, mesmo que pouco, de cada um dos livros que li :)

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Estação Perdido, de China Miéville


Já acho complicado falar sobre coisas de modo não–ficcional; sempre acho que deixo passar coisas importantes em detrimento de aspectos menos relevantes, mas que me chamaram a atenção… Como falar sobre, então, um livro que já — com facilidade — entrou, de cara, no meu Top 10 de livros da vida…? Pois é: Estação Perdido é bom a esse nível.


Estação Perdido me agrada em diversos níveis, a exemplo do que acontece com minhas outras obras preferidas. Vou tomar como exemplo O senhor dos anéis: Ao mesmo tempo em que a escrita contemplativa e épica de Tolkien me acalma, gosto da construção (simples) dos personagens; do cenário, rico e com tons de sonho; da amizade construída entre eles; da grandiosidade da história e ao mesmo tempo da pequenez do personagem principal e da mensagem que isso passa ao final. Outro exemplo: Deuses americanos. Gosto do mundo; gosto do personagem principal, ainda que o critiquem, mas gosto justamente por sua passividade — por sua “deboice", tão semelhante à minha —; gosto da estrutura de “road movie”; gosto dos contos intercalados; gosto da pausa no meio, para apresentar a vida e o mistério daquela cidadezinha pacata… Assim como em A estrada: Gosto da escrita do Cormac McCarthy; gosto dos personagens; gosto do mundo, cru, seco, cruel… E aqui, nessa história de China Miéville, gosto do mundo, dos personagens, da trama, das surpresas, da mescla de gêneros literários… Resumidamente: gosto de tudo.

Começando pelos personagens: são ricos em construção de personalidade como em poucas obras por aí. Todos seguem a lógica real da humanidade (mesmo que não sejam humanos na acepção estrita da palavra): têm vontades e seus esforços são em prol de realizá–las. O protagonista, Isaac Dan der Grimnebulin, é um humano de meia–idade, gordo e negro, cientista e que vive à margem do sistema, que vive um romance proibido com uma mulher de outra espécie, Lin, uma khepri — praticamente uma humana com cabeça de besouro —, que é uma artista excluída de seus iguais. Por aí já podemos ver que não acompanharemos heróis, reis ou nobres, como seria esperado em uma história “padrão” de fantasia.

Aliás, deslocado é uma boa palavra para falar dos personagens de Estação Perdido. Todos os são, em diversos níveis. Além da dupla principal, temos o garuda Yagharek, que foi condenado pelos seus e fugiu, procurando Isaac para ajudá–lo a reverter os danos dessa condenação; e ainda Derkhan, uma amiga humana deles, que participa de um grupo revolucionário contra o governo. Até mesmo os antagonistas da trama — o monstruoso “contratante” de Lin e as cinco mariposas — são deslocados e sozinhos, procurando seu lugar no mundo. Essa parece ser a tônica da cidade de Nova Crobuzon, onde se passa a trama — um aglomerado de pessoas deslocadas, sozinhas, literalmente perdidas em uma rotina sem sentido.

A trama é outro aspecto que vai por caminhos inesperados. Apesar de começarmos acreditando que é no trato de Isaac e Yagharek que o livro vai prosseguir, é no desdobramento inesperado que isso ocasiona que o livro realmente tem seu prosseguimento — e acreditem em mim: não “sobra” nada em suas 608 páginas; tudo ali está bem colocado, tem sua função narrativa ou para dar mais verossimilhança ao mundo de Bas–Lag. Claro que algumas pessoas irão encontrar — imagino — “excesso de informação”, mas não foi o meu caso. Tudo o que me foi ali descrito por Miéville foi delicioso de ler — e, coisa que pouco me acontece hoje em dia, deixa, até agora, mais de um mês depois da leitura, uma espécie de saudade ou vontade de retornar àquele universo. É por isso que pus o Estação Perdido no meu “top da vida”: ele deixou marcas, em meio a tantas obras mais ou menos semelhantes que existem por aí e que são lidas e esquecidas logo em seguida.

Que venham logo para o Brasil as outras obras que se passam no mesmo mundo de Bas–Lag, chamadas The scar e The iron council, ainda sem tradução mas já confirmadas pela editora Boitempo.

E que venham também todas as outras obras do autor!

Nova Crobuzon, na visão do artista Thomas Chamberlain
Homens–cactos, outra raça das várias de Nova Crobuzon, pelo artista JP Cokes
Yagharek e Lin (não encontrei o nome do artista)
Isaac Dan der Grimnebulin, pelo artista Lipatov
E, por fim, esse incrível figurino de Isaac e Lin — ao que me parece, de um trabalho de conclusão de curso para uma escola de teatro, executado pela artista Anastasia Prokonova