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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Minha história em games – Atari 2600


Olá leitores e amigos do Rahmati :)

Volto, após breve hiato, para mudar um pouquinho o foco das postagens (mas, se você é leitor do blog, sabe que eu falo de outras coisas além da literatura também, né): vou falar da minha história enquanto jogador de videogames.

Como sou uma criatura movida a artes, acabo encontrando nelas todas minha fonte de entretenimento — livros, filmes, músicas, pinturas e desenhos, dança, e, em grande parte, os videogames. Para mim é ponto pacífico eles serem considerados como arte, então isso não é nem uma questão. Aliás, como vocês perceberão nessa série de postagens, a parte visual dos jogos conta demais para mim — e não estou falando de gráficos; estou falando de direção artística.

Assim, vou explorar esse tema através de um levantamento que fiz: os jogos que mais me marcaram separados por seus anos de lançamento. Será um exercício legal para criar uma linha do tempo da evolução dos games — legal até para mim mesmo, porque joguei todos esses jogos fora de suas épocas. Nem que essa "evolução dos videogames" seja através do ponto de vista de um consumidor completamente fora dos padrões de um gamer, haha.

A intenção aqui é comentar por que tais jogos foram importantes para mim, se os considero ruins ou bons — literalmente cagando e andando para o senso comum —, e como foi a minha experiência com eles.

Dessa forma, os jogos mais antigos a que eu tive acesso foram os de Atari 2600, que eu jogava na casa de um amigo... e o mais curioso aqui é que não me lembro mais do nome desse amigo :''D

Então vamos a eles!


Skiing, de 1980, para Atari 2600


Como vocês podem perceber pelas imagens e pelo nome, o jogo tenta ser um simulador de esqui, e eu passei muitas e muitas horas nele. Ou, ao menos, pelo que eu me lembro, hehe. Tenho certeza de que boa parte do tempo que eu passava na casa do meu amigo, lá pelo meio/final dos anos 90, era gasto descendo ladeiras, tentando passar entre as bandeirinhas e tomando tombos. Só não lembro era o que tanto eu ia fazer na casa desse amigo kkkkk

Claro que o Skiing não tem gráficos bons, nem uma jogabilidade muito precisa, mas foi uma das minhas primeiras experiências com videogames, e tem um lugar muito especial no meu coração. Tanto que, anos depois, tentei reviver esses bons momentos com outro jogo de esqui, e isso acaba trazendo novas boas lembranças, inteiramente diferentes daquelas, mas isso fica pra outro post ;)

Pitfall!, de 1982, para Atari 2600


Esse é um clássico eterno, com seu lugar reservado na história dos videogames... mas, apesar de também integrar minhas jogatinas na casa do amigo esquecido, não me pegava como o próximo da lista. Não sei, já naquela época eu achava as coisas meio repetitivas... Enfim. Eu tinha outras experiências, na casa de meus primos, àquela época, muito mais complexa do que a que Pitfall! me oferecia.

O próximo, no entanto, eu joguei até cansar.


Enduro, de 1983, para Atari 2600


Apesar dos gráficos primorosos, que você pode ver exemplificado acima — :P —, eu achava o máximo a mudança de clima e hora do dia durante a corrida infinita de Enduro. Sério, esse é um jogo que se pode "zerar"? Dá pra chegar em 1.º? õ.ò Eu nunca consegui, mas me divertia horrores ultrapassando os carrinhos que pareciam caranguejos.

E, então, vem o último jogo dessa época, jogado em circunstâncias inteiramente diferentes desses primeiros.

River Raid, de 1982, para Atari 2600


Por mais incrível que pareça, River Raid não estava naquele rol inicial de jogos de Atari, e foi jogado pela minha pessoa pela primeira vez apenas — vejam bem, senhoras e senhores, vejam bem — em 2017!, numa hamburgueria retrô da cidade onde moro atualmente, equipada com fliperamas e um emulador Raspberry entupido de jogos.

E ainda bem que eu não o joguei naquela época, porque ô joguinho difícil! ':D

Eu não tive muito tempo naquele dia, mas prometo que assim que possível eu jogo mais essa birosca — e, se os astros se alinharem e os deuses colaborarem, quando eu tiver um GPD XD.

Agora, uma coisa curiosa: todos esses jogos foram desenvolvidos pela Activision. Ou seja: se não fosse ela, tenho certeza que o Atari 2600 não teria feito tanto sucesso como fez. É bem aceitável dizer que essa empresa lançou as bases de praticamente tudo o que veio depois — é bem difícil não ver o embrião dos jogos de corrida atuais no Enduro, dos jogos de plataforma no Pitfall!...


Enfim; essa foi a primeira parte da minha história com videogames, envolvendo o Atari 2600. Outras virão, uma para cada console que eu joguei, e espero que eu consiga postá-las em breve, e espero que vocês curtam essa série :)

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Leituras de junho


Junho não foi um mês de muita leitura, porque minha vida está atarefadíssima — e, felizmente, vai ficar ainda mais —, mas li dois romances que encheram meu coraçãozinho peludo com um tanto de felicidade. Vamos a eles :)



Fazia tempo que eu não lia nada de fantasia clássica — e não esperava que O gigante enterrado, do japonês Kazuo Ishiguro, fosse uma obra assim. Isso me causou um estranhamento, no início (eu não leio sinopse nem nada sobre o livro quando posso evitar; via de regra, eu compro livros por indicações...), e não sei se o estranhamento foi por descobrir ser uma fantasia pós-arturiana feita por um japonês, ou se foi por o ser por um ganhador do Nobel. De qualquer forma, passado o estranhamento, fui entrando no clima e gostando cada vez mais da história e de acompanhar o adorável casal de velhinhos Axel e Beatrice em sua jornada. Descobrir junto a eles o que causa a névoa que cobre o reino e traz o esquecimento a todos, encontrar o guerreiro, o menino e o cavaleiro, entender o problema do gigante enterrado... Tudo isso foi emocionante e recompensador. O amor dos protagonistas é tocante ao ponto de nos fazer querer conhecê-los, nem que seja somente para vê-los de longe, juntos, interagindo, se amparando. Seguramente, posso dizer que esse é um romance sobre sentimentos, e são livros assim que me fazem entender por que a fantasia é um gênero tão marcante. Inclusive, apesar de Ishiguro não ter um estilo de escrita tão ágil quanto os escritores atuais, definitivamente me fez ter vontade de ler mais coisas suas. O próximo, então, deve ser o Não me abandone jamais. Ah: e como li em e-book, esse eu quero ter em versão física, porque a capa texturizada dele, áspera, com detalhezinhos dourados, é simplesmente linda.

*


Star Wars: Estrelas perdidas foi o primeiro romance original que li da saga, e comecei bem. Realmente já tinha ouvido falar bem dele, e esse foi um dos motivos que me levaram a escolhê-lo como o primeiro da jornada literária pela galáxia distante de muito tempo atrás. O outro motivo foi que eu estava curiosíssimo para descobrir como a autora, Claudia Gray, conduziria uma história de amor por esse cenário — e, ainda por cima, passando por todos os pontos principais da trama da trilogia clássica. A verdade é que ela conduziu essa história de forma incrivelmente deliciosa! Estrelas perdidas tem, sim, uma trama simples, de encontros e desencontros, como toda boa história de relacionamentos, mas é muitíssimo bem escrita, e subverte alguns elementos do gênero de forma interessante — como a forma como o casal protagonista reage aos elementos externos, nunca duvidando um do outro, sem sucumbir às intrigas que sempre ocorrem nessas tramas, e o final, que (claro que não vou dar spoiler), é interessantíssimo. Sem dúvida o livro foi um adendo à saga que aprofunda demais certas personagens e certas motivações por trás de seus atos, e uma excelente porta de entrada para os próximos livros. Em tempo: li esse livro em papel mesmo, e é um dos que eu vou guardar, ao lado do Star Wars: Episódios IV, V e VI da Darkside :)

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Leituras de maio


Indo direto ao assunto, vamos às minhas obras comentadas do mês de maio de 2018, esse ano tão esquisito para o Brasil, com greve nacional dos caminhoneiros, Copa do Mundo e sabe-se lá o que mais vem por aí...:


ROMANCES:




Já começo com os dois pés na porta: eu não estava psicologicamente preparado para o turbilhão de emoções que é o final — especialmente depois dos 80% — de Mistborn vol. 2: O Poço da Ascensão. Que livro, senhoras e senhores, que livro esse tal desse Brandon Sanderson escreveu...! Aliás, acho que já posso dizer: que série! (Se ainda não sabe do que estou falando, leia este post sobre o primeiro volume.) É meio que ponto pacífico que o segundo volume de qualquer trilogia é, literalmente, intermediário — vai retomar pontas soltas do primeiro, assentar as bases da conclusão, desenvolver melhor personagens que brilharão no terceiro volume e, eventualmente, matar queridinhos dos fãs. No entanto, apesar do Sanderson fazer realmente tudo isso, ele apresenta (ao menos nas duas obras que eu li) aventuras bem fechadinhas, com arcos próprios, que não deixa a impressão de serem os volumes 2 e 3, na verdade, um único livro cortado no meio. O Poço da Ascensão tem personagens próprios e dilemas próprios, e é deliciosamente agoniante. A evolução de Vin, de Straff Venture e de OreSeur é enorme, mas quem brilha mesmo são os ótimos Elend e Sazed. Mal posso esperar pelo terceiro livro dessa "primeira era" de Mistborn, intitulada O Herói das Eras :D



Até o dia em que o cão morreu é o primeiro romance que leio do Daniel Galera, e me surpreendeu positivamente. Por coisas que li sobre o autor em alguns cantos da internet, imaginei que ele fosse daqueles autores "cabeçudos", que privilegiam a forma acima do conteúdo, com longas digressões e fluxos de consciência, parágrafos longos e pontuação incomum — ou seja, tudo o que eu não costumo curtir muito. No entanto, Galera apresenta justamente o oposto disso: texto simples, frases bem construídas, trama que faz sentido (hehe) e interessante... A única pena é que é um livro curto — mas, talvez, exatamente por causa disso, é redondinho e muito agradável. Agora, sim, estou animado e confiante para partir para o seu famosíssimo Barba ensopada de sangue.


* * *

COLETÂNEAS:


Para conhecer o James Joyce, antes de me arriscar no Ulysses, resolvi me aventurar pelos contos de Dublinenses. Realmente percebe-se que o experimentalismo ficou todo por lá. Os contos dessa coletânea são contidos, cotidianos, simples até. Apresentam facetas da vida na capital irlandesa no início do século XX, em cenas que privilegiam o que escapa aos olhos de uma visão desatenta. Que os leitores não esperem tramas rocambolescas e plot twists aqui; o que vão encontrar são detalhes íntimos dos personagens, relações interpessoais, dramas privados e recortes do dia a dia. É o meu tipo preferido de leitura? Não. Mas não nego que ler Dublinenses me fez repensar um tanto o modo como eu vejo a literatura — e, principalmente, o que é um conto. Ah, recomendo fortemente o último conto; é, disparado, o melhor.



Fico muito chateado quando me decepciono com algo que, ao meu ver, prometia tanto. Space Opera: Odisseias fantásticas além da fronteira final, organizado por Hugo Vera & Larissa Caruso foi assim: uma decepção. Não tinha como dar errado; adoro contos e adoro space opera, esse divertido sub-gênero da ficção científica. No entanto... honestamente, não encontrei nessa coletânea um único conto que merecesse mais de 3 estrelas. Aliás, deve ter um ou dois que eu cheguei a ter vontade de ler inteiro. Não há nenhum mal-escrito; contudo, todos apresentam tramas batidas, personagens e ambientações repetitivas (para não dizer quase idênticas), e praticamente nada de realmente novo ou inesperado. Não sei se sou eu quem esperava demais, mas não creio que possa ser culpado por não gostar de nada dali. Aliás, "nada" não — a capa é bem bonita.

* * *

CONTO:



Feliz natal é um conto interessante da escritora Patrícia Melo. Foi publicado na Amazon gratuitamente para chamar atenção para o volume completo da coletânea de contos da autora, intitulado Escrevendo no escuro. Na trama, temos uma faxineira limpando um laboratório de um cientista, que trabalha com cobaias, e os desdobramentos das relações rotineiras entre todos esses elementos. Tem um final com uma revelação incômoda, mas honestamente acho que podia ter mais... emoção? no desenvolvimento. Por ser bem curto, vale a leitura.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Há um tubarão na piscina, de José Figueiredo



Há um tubarão na piscina é o romance de estreia do José Figueiredo, também conhecido como Jefferson Figueiredo, membro do podcast 30:MIN… e é um romance estranho. Não que isso seja uma crítica; acho que ele tinha toda a intenção de ser. Ele não tem a ambição de explicar tudo, nem de fazer o leitor se sentir confortável na leitura, nem em esclarecer detalhes dos personagens e eventos misteriosos e/ou sobrenaturais. Porque cabe uma explicação: esse livro é uma obra, pode–se dizer, de realismo mágico, e me lembrou muito das histórias de José J. Veiga (e, agora percebo, até mesmo na escrita). Mas vamos à trama.

Três amigos — Ângelo, Cândido e Regina — decidem viajar para Porto Alegre para encontrarem um rock star desaparecido, o tal do John Smith. A metódica Regina programa todo o plano de ação, mas é claro que as coisas saem totalmente do controle. Sim, tem um quê (um quêzão, um quêzíssimo) de Bolaño aqui, mesmo porque as referências não estão nem um pouco escondidas. (Aliás, cabe aqui um tópico: esse livro é um mosaico de referências, de filmes de faroeste a Murakami, e confesso que não devo ter pegado a maioria delas.) Outra coisa que eu confesso é que passei a gostar mesmo do livro a partir da inserção dos dois elementos fantásticos principais — uma personagem que é quase uma deusa (ou é uma deusa, sei lá) e um personagem que acorda de sonhos intranquilos metamorfoseado em… melhor ler para saber.

Não é o melhor livro do ano, mas tem seus encantos. Peca, contudo, em dois pontos: a capa, que não gostei e que parece rótulo de Tubaína, e do serviço de revisão da editora que beira o amador, com o tanto de erros que deixou passar. No entanto, isso não desabona a história, ainda que incomode.

Quem gosta de realismo mágico deve ler o Há um tubarão na piscina — e ler todas as notas de rodapé, porque são uma divertida atração a mais.


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Leituras de Abril


Primeiramente, fora Temer. Segundamente, peço desculpas aos leitores do bróg por estar postando apenas esses posts de leituras do mês, e tão menos os posts, digamos, temáticos, ou monotemáticos, sei lá — mas vocês entenderam a ideia. É que está faltando tempo mesmo. Paciência. Mas, justamente por isso, esses posts “condensadões" são úteis; falo sobre todos os livros que quero falar e não deixo o blog morrer.

Esse mês de abril foi cheio de emoções, e nem todas elas boas. Li uns livros muito bons, descobri uma doença degenerativa na minha coluna, passei um final de semana num pesqueiro, terminamos — finalmente! —, eu e o Luís Beber, de escrever nosso livro em parceria (para lançamento em breve)… Enfim, vocês perceberam que realmente foi um mês de altos e baixos. E espero que os altos se proliferem e os baixos fiquem contornáveis :)

Mas vamos às obras do mês!


ROMANCES:



Que eu sempre gostei do Stephen King não é segredo, mas, mais uma vez, ele conseguiu me surpreender com Joyland. Dizem que não se deve julgar um livro pela capa, mas confesso que o que mais me atraiu nessa foi a ruiva que eu vim a descobrir ser a personagem Erin Cook. Essa ilustração, além de ser linda, muitíssimo bem executada, reflete perfeitamente a alma do livro — não que ela represente uma cena, exatamente, do romance, mas todos os elementos — e o clima — da ilustração são fidedignos ao que se encontra na história. Então, e a história? Vou contar a vocês que nunca imaginei que Stephen King pudesse ser tão… murakamesco. Quê?! Murakami e King na mesma frase? Sim! Olha que fantástico! Devin Jones, o protagonista de Joyland, poderia muito bem ser um personagem escrito pelo japonês — é melancólico, é uma boa pessoa, adora caminhar para aproveitar seus momentos de introspecção, é altamente mediano (mas com eventuais arroubos de protagonismo)… mas, apesar disso tudo, é um personagem cativante. Os coadjuvantes, como em qualquer obra do King, são adoráveis; bem-construídos e realistas — tanto que, lá pela metade do livro, eu me pego pensando: “que merda… esse é um livro do Stephen King… logo, logo, alguém vai se foder grandão… alguém ou todo mundo… vai vendo…" — mas, incrivelmente, não! Não estou dando spoiler; estou só dizendo que esta não é uma história típica do Stephen King! Arrisco mais uma vez dizer que é uma história que Haruki Murakami escreveria se fosse obrigado a escrever um thriller. Então, acreditem no que eu digo: o mestre King sempre surpreende. Leiam sem receio.



Mais uma vez, outro que deixei passar o hype para ler o Guerra do velho, e posso dizer com toda a tranquilidade: QUE LIVRO FODA. A começar pela capa, que vende exatamente o que a história é. Passando pela escrita do John Scalzi, que é leve, fluida e sem grandes pretensões. Continuando pelos personagens, que são cativantes e bem construídos (só acho que o protagonista é sortudo até demais…). E culminando na história, que, basicamente — e o autor não esconde isso de ninguém — pegou a ideia apresentada em Tropas estelares e a ampliou para um universo interessante, variado e coeso, com adendos de incrível criatividade. Guerra do velho pega o que foi consolidado com as grandes space operas do passado e entrega uma história moderna e deliciosa. 'Bora pro próximo livro, o As Brigadas Fantasma :)



E, enfim, a trilogia Comando Sul do escritor Jeff VanderMeer termina, com o romance Aceitação… e eu tenho algumas considerações tanto do romance quanto da trilogia em geral — e, inclusive, do filme Aniquilação. Mas, Rahmati, do filme também? Sim, porque o filme é um resumão da trilogia toda. Mas, antes, ao que interessa: esse terceiro volume é tão bom quanto o primeiro, ou mesmo tão razoável quanto o segundo? A resposta é simples: não. E talvez o culpado disso seja o filme. Vejam bem, não estou dizendo que os livros são ruins. A história toda é uma das coisas mais estranhas que eu já li — aliás, essa seria uma boa definição das duas mídias, livros e filme: é uma grande história de estranhamento com momentos de terror. Só que, enquanto o primeiro volume te introduz num mundo original para caramba, o segundo monta as bases e o terceiro dá os toques finais — porque não dá explicações, coisa que o filme faz. O problema é que os livros, falando do Autoridade e do Aceitação, enrolam demais. Dava, com folga, para ter feito um único livro, lá com suas 450 páginas, mas que fosse mais direto ao ponto, assim como o filme fez. Então o filme é uma boa adaptação? É! Porque tudo o que tem no livro está lá de alguma forma (e aqui vão os spoilers de ambos): o bicho que grita, que foi transposto para o urso decomposto; o duplo do faroleiro, que virou o duplo do marido da bióloga; o rastejador, que se transformou no alien do final… Só não gostei do filme ter entregado a origem da Área X na primeira cena, mostrando o meteoro. Mas… e o personagem John Rodriguez, o Controle? Sério: o que ele fez no livro? Serviu para quê? Não fez falta nenhuma. Em resumo: eu explico a Área X para mim mesmo como uma espécie de câncer do planeta. No filme, é aquele câncer que mata rapidamente; no livro, é o que mata aos poucos.



Comentários nesse post :)

* * *


CONTO:


Mais um ótimo texto do Leonel Caldela, esse conto O cão é bem-escrito, denso, dramático e impactante. É uma história de fantasia que dialoga com outras obras do autor, como O código élfico e O caçador de apóstolos, mas não creio que se passe realmente no universo de alguma delas. É mais como uma “realidade alternativa", acho (coisa que gosto de fazer nas minhas obras também; todas têm elementos umas das outras). Para não variar, Leonel é brutal com seus personagens — e, aqui, isso se reflete principalmente no final, porque, apesar de eu imaginar que havia alguma coisa ali, eu jamais poderia esperar aquilo. Mais um ponto para o Caldela, e espero ansiosamente sua próxima obra que não for da série Ruff Ghanor.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Leituras de Março



Embora eu não tenha lido tanto quanto o mês anterior, em que eu estava de férias, creio que foi um mês bom… Não consegui manter meu padrão de 1 livro por semana, mas não posso reclamar, porque estou lendo simultaneamente alguns livros de contos ou crônicas, que vão demorar um pouco a dar as caras por aqui… Assim sendo, vamos aos comentários das leituras do mês.


ROMANCES:





O primo Basílio entrou para o rol das obras que me surpreenderam porque eu nada delas esperava. O escritor, o português Eça de Queirós, faz jus à fama que tem: é um excelente escritor e igualmente talentoso contador de histórias. Inclusive, a trama do livro é mais “moderna" do que eu imaginava; cheia de reviravoltas, de detalhes dos bastidores da sociedade da época que eu julgava serem característicos do século XX, pelo menos, como neste trecho… E com um final bastante satisfatório — ao menos para o meu gosto. Um adendo sobre a modernidade da história: imagino que seja devido a Portugal ser um país bem mais velho que o Brasil, e, por isso, certos costumes que aqui pareceriam “um absurdo" à nossa sociedade conservadora são por lá tão anteriores… Ou não; pode ser que tais costumes somente não eram tão descritos em nossa literatura da época. Preciso estudar melhor essa questão. De qualquer forma, é um excelente livro. Achei melhor que o outro clássico que li recentemente, o Orgulho e preconceito. E essa capa que coloquei não é a da versão que eu li, é só porque ela é a mais bonita que encontrei. Não coloquei a da que li porque foi em um e–book de antologia das obras do Eça, a Obra completa de Eça de Queirós vol. I: Romances 1870–1880.




Eu, geralmente, fujo de livros quando há um hype sobre eles; assim, esperei a poeira baixar e as críticas se tornarem mais imparciais para decidir se leria ou não o Caixa de pássaros do escritor Josh Malerman. Como os leitores ainda estavam sendo favoráveis, resolvi encarar a tarefa e não me arrependi. No romance de suspense / terror psicológico, alguma coisa está deixando as pessoas loucas — alguma coisa que elas veem. Assim, todos começam a tapar as janelas e só sair nas ruas vendadas. Claro que isso, ao longo do tempo, destrói com qualquer possibilidade de sociedade organizada — muito a exemplo de Ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Nesse livro, acompanhamos a mãe de duas crianças, e, em tempo real e em flashback, descobrimos o que ela está fazendo e como as coisas foram ficar daquele jeito — ou melhor, a visão dela de como as coisas degringolaram, o que, para mim, acaba sendo mais interessante. Mais duas coisas coisas me agradaram nesse livro: a escrita do autor, que, apesar de ser meramente uma ferramente para narrar a história, é simples e de fácil leitura, tornando a imersão fácil e prazerosa. A outra coisa que me agradou foi a escolha do autor de não mostrar, não explicar nada, mais ou menos como seria com qualquer um de nós se passássemos por algo como o que aconteceu ali. Não é o melhor livro de terror (ou suspense, sei lá) que eu li, mas fiquei, sim, angustiado em alguns momentos, e valeu muito a leitura.




Finalmente li esse clássico! Apesar de Fundação, do Isaac Asimov, não poder ser chamado de emocionante, para mim foi um livro muito interessante. Na história, é narrada a criação da Fundação, uma instituição destinada a minimizar o impacto de uma grande era negra da cultura a que o Império Galáctico fatalmente enfrentará. Essa grande crise foi “profetizada" — na verdade calculada pelo psico–historiador Hari Seldon, uma espécie de super–estatístico que, através de sua ciência, pôde prever com uma precisão assustadora o futuro da espécie humana, calculando inclusive variáveis psicológicas (daí o nome psico–historiador) na equação. Eu disse que o livro não é emocionante porque ele não se prende a personagens centrais; ao contrário, ele mostra três grandes momentos da Fundação, literalmente firmando suas bases para os próximos livros da trilogia. Certamente vou ler os seguintes, mas não estou com aquela pressa, justamente porque me pareceu mais uma leitura para conhecer um clássico completamente do que realmente por encantamento com a história.


CONTOS:




Obsolescência, do Alec Silva: Apesar da capa e da ideia do conto serem boas, eu tenho ressalvas em relação a ele. Se você, leitor, acompanha o blog há algum tempo, pode ter percebido que eu já estou relativamente cansado de distopias. Mês passado mesmo li uma que gostei, por isso o “relativamente”; não fechei a porta para elas. A questão é que, para mim, as distopias têm que 1. fazerem sentido; 2. não serem exageradas demais; e 3. não serem inocentes (às vezes esse item se mistura com o anterior). Enquanto o conto é muito bom no item 1, porque trata de uma sociedade onde todo mundo é obrigado a consumir, tendo o governo sido substituído pelo “mercado”, seja lá o que isso significar, e que aqui tem uma representação indissociável do governo regulamentador, gerando uma mescla de conceitos interessante , ele peca no item dois, e isso quebrou minha imersão, por ter — a meu ver — quebrado a verossimilhança (estou me referindo aos açougueiros, para quem já leu). Exageros desse porte me parecem demais numa sociedade civilizada, resvalando perigosamente no item 3… Além disso, o conto usa muito do “as you know, Bob” — o tropo do personagem que explica para outro algo que ele já sabe, mas que na verdade está explicando é para o leitor/expectador.

O Mercador de Sonhos, do M. M. Schweitzer: Essa é a minha segunda incursão ao universo de Morserus, e me deparei com mais um conto interessante! Apesar de eu ter esperado aprender mais sobre esse mundo fantástico, onde os humanos não existem e os animais, antropomorfizados, assumem seus lugares, o que se encontra nesse conto é a aventura ao subconsciente de um único personagem — Ollie, um porco de 15 anos de idade e cheio de traumas e sonhos, como qualquer adolescente. Acaba sendo uma fábula muito criativa e bem escrita, descontados os errinhos de revisão. No entanto, parece–me que o autor teve a ideia para uma história “genérica” — não no sentido ruim, mas no sentido de uma história que poderia se passar com qualquer pessoa — e decidiu ambientá–la também em seu universo. Isso não traz qualquer problema; muito pelo contrário — só reforça ainda mais meu desejo de aprender mais sobre esse mundo. (Aliás, pensando aqui sobre esse conto e sobre o anterior que li, o Banquete para fantasmas… Será que é assim que o autor vai apresentar seu mundo, em todos os contos — pequenos drops, histórias pontuais que mostram só uma peça do quebra–cabeças de cada vez…? Interessante se for…)

sexta-feira, 16 de março de 2018

Um trecho marcante de Eça de Queirós


E deleitava–se nas recordações do colégio! Que bom tempo! 
— Lembras–te quando estivemos de mal? 
Luísa não se lembrava… 
— Por tu teres dado um beijo na Teresa, que era o meu sentimento — disse Leopoldina. 
Puseram–se a falar dos sentimentos. Leopoldina tivera quatro; a mais bonita era a Joaninha, a Freitas. Que olhos! E que benfeita! Tinha–lhe feito a corte um mês!… 
— Tolices! — disse Luísa corando um pouco. 
— Tolices! Por quê? 
Ai! era sempre com saudade que falava dos sentimentos. Tinham sido as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciúmes! Que delírio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida! 
— Nunca — exclamou — nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti pela Joaninha!… Pois pode crer…

Eça de Queirós – O primo Basílio (1878!)