Postagem em destaque

Links para a obra do Rahmati

Nesse post você tem acesso a todas as minhas obras publicadas :) Os links para compra / leitura / download estão embaixo de cada imagem. ...

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Leituras de maio


Indo direto ao assunto, vamos às minhas obras comentadas do mês de maio de 2018, esse ano tão esquisito para o Brasil, com greve nacional dos caminhoneiros, Copa do Mundo e sabe-se lá o que mais vem por aí...:


ROMANCES:




Já começo com os dois pés na porta: eu não estava psicologicamente preparado para o turbilhão de emoções que é o final — especialmente depois dos 80% — de Mistborn vol. 2: O Poço da Ascensão. Que livro, senhoras e senhores, que livro esse tal desse Brandon Sanderson escreveu...! Aliás, acho que já posso dizer: que série! (Se ainda não sabe do que estou falando, leia este post sobre o primeiro volume.) É meio que ponto pacífico que o segundo volume de qualquer trilogia é, literalmente, intermediário — vai retomar pontas soltas do primeiro, assentar as bases da conclusão, desenvolver melhor personagens que brilharão no terceiro volume e, eventualmente, matar queridinhos dos fãs. No entanto, apesar do Sanderson fazer realmente tudo isso, ele apresenta (ao menos nas duas obras que eu li) aventuras bem fechadinhas, com arcos próprios, que não deixa a impressão de serem os volumes 2 e 3, na verdade, um único livro cortado no meio. O Poço da Ascensão tem personagens próprios e dilemas próprios, e é deliciosamente agoniante. A evolução de Vin, de Straff Venture e de OreSeur é enorme, mas quem brilha mesmo são os ótimos Elend e Sazed. Mal posso esperar pelo terceiro livro dessa "primeira era" de Mistborn, intitulada O Herói das Eras :D



Até o dia em que o cão morreu é o primeiro romance que leio do Daniel Galera, e me surpreendeu positivamente. Por coisas que li sobre o autor em alguns cantos da internet, imaginei que ele fosse daqueles autores "cabeçudos", que privilegiam a forma acima do conteúdo, com longas digressões e fluxos de consciência, parágrafos longos e pontuação incomum — ou seja, tudo o que eu não costumo curtir muito. No entanto, Galera apresenta justamente o oposto disso: texto simples, frases bem construídas, trama que faz sentido (hehe) e interessante... A única pena é que é um livro curto — mas, talvez, exatamente por causa disso, é redondinho e muito agradável. Agora, sim, estou animado e confiante para partir para o seu famosíssimo Barba ensopada de sangue.


* * *

COLETÂNEAS:


Para conhecer o James Joyce, antes de me arriscar no Ulysses, resolvi me aventurar pelos contos de Dublinenses. Realmente percebe-se que o experimentalismo ficou todo por lá. Os contos dessa coletânea são contidos, cotidianos, simples até. Apresentam facetas da vida na capital irlandesa no início do século XX, em cenas que privilegiam o que escapa aos olhos de uma visão desatenta. Que os leitores não esperem tramas rocambolescas e plot twists aqui; o que vão encontrar são detalhes íntimos dos personagens, relações interpessoais, dramas privados e recortes do dia a dia. É o meu tipo preferido de leitura? Não. Mas não nego que ler Dublinenses me fez repensar um tanto o modo como eu vejo a literatura — e, principalmente, o que é um conto. Ah, recomendo fortemente o último conto; é, disparado, o melhor.



Fico muito chateado quando me decepciono com algo que, ao meu ver, prometia tanto. Space Opera: Odisseias fantásticas além da fronteira final, organizado por Hugo Vera & Larissa Caruso foi assim: uma decepção. Não tinha como dar errado; adoro contos e adoro space opera, esse divertido sub-gênero da ficção científica. No entanto... honestamente, não encontrei nessa coletânea um único conto que merecesse mais de 3 estrelas. Aliás, deve ter um ou dois que eu cheguei a ter vontade de ler inteiro. Não há nenhum mal-escrito; contudo, todos apresentam tramas batidas, personagens e ambientações repetitivas (para não dizer quase idênticas), e praticamente nada de realmente novo ou inesperado. Não sei se sou eu quem esperava demais, mas não creio que possa ser culpado por não gostar de nada dali. Aliás, "nada" não — a capa é bem bonita.

* * *

CONTO:



Feliz natal é um conto interessante da escritora Patrícia Melo. Foi publicado na Amazon gratuitamente para chamar atenção para o volume completo da coletânea de contos da autora, intitulado Escrevendo no escuro. Na trama, temos uma faxineira limpando um laboratório de um cientista, que trabalha com cobaias, e os desdobramentos das relações rotineiras entre todos esses elementos. Tem um final com uma revelação incômoda, mas honestamente acho que podia ter mais... emoção? no desenvolvimento. Por ser bem curto, vale a leitura.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Há um tubarão na piscina, de José Figueiredo



Há um tubarão na piscina é o romance de estreia do José Figueiredo, também conhecido como Jefferson Figueiredo, membro do podcast 30:MIN… e é um romance estranho. Não que isso seja uma crítica; acho que ele tinha toda a intenção de ser. Ele não tem a ambição de explicar tudo, nem de fazer o leitor se sentir confortável na leitura, nem em esclarecer detalhes dos personagens e eventos misteriosos e/ou sobrenaturais. Porque cabe uma explicação: esse livro é uma obra, pode–se dizer, de realismo mágico, e me lembrou muito das histórias de José J. Veiga (e, agora percebo, até mesmo na escrita). Mas vamos à trama.

Três amigos — Ângelo, Cândido e Regina — decidem viajar para Porto Alegre para encontrarem um rock star desaparecido, o tal do John Smith. A metódica Regina programa todo o plano de ação, mas é claro que as coisas saem totalmente do controle. Sim, tem um quê (um quêzão, um quêzíssimo) de Bolaño aqui, mesmo porque as referências não estão nem um pouco escondidas. (Aliás, cabe aqui um tópico: esse livro é um mosaico de referências, de filmes de faroeste a Murakami, e confesso que não devo ter pegado a maioria delas.) Outra coisa que eu confesso é que passei a gostar mesmo do livro a partir da inserção dos dois elementos fantásticos principais — uma personagem que é quase uma deusa (ou é uma deusa, sei lá) e um personagem que acorda de sonhos intranquilos metamorfoseado em… melhor ler para saber.

Não é o melhor livro do ano, mas tem seus encantos. Peca, contudo, em dois pontos: a capa, que não gostei e que parece rótulo de Tubaína, e do serviço de revisão da editora que beira o amador, com o tanto de erros que deixou passar. No entanto, isso não desabona a história, ainda que incomode.

Quem gosta de realismo mágico deve ler o Há um tubarão na piscina — e ler todas as notas de rodapé, porque são uma divertida atração a mais.


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Leituras de Abril


Primeiramente, fora Temer. Segundamente, peço desculpas aos leitores do bróg por estar postando apenas esses posts de leituras do mês, e tão menos os posts, digamos, temáticos, ou monotemáticos, sei lá — mas vocês entenderam a ideia. É que está faltando tempo mesmo. Paciência. Mas, justamente por isso, esses posts “condensadões" são úteis; falo sobre todos os livros que quero falar e não deixo o blog morrer.

Esse mês de abril foi cheio de emoções, e nem todas elas boas. Li uns livros muito bons, descobri uma doença degenerativa na minha coluna, passei um final de semana num pesqueiro, terminamos — finalmente! —, eu e o Luís Beber, de escrever nosso livro em parceria (para lançamento em breve)… Enfim, vocês perceberam que realmente foi um mês de altos e baixos. E espero que os altos se proliferem e os baixos fiquem contornáveis :)

Mas vamos às obras do mês!


ROMANCES:



Que eu sempre gostei do Stephen King não é segredo, mas, mais uma vez, ele conseguiu me surpreender com Joyland. Dizem que não se deve julgar um livro pela capa, mas confesso que o que mais me atraiu nessa foi a ruiva que eu vim a descobrir ser a personagem Erin Cook. Essa ilustração, além de ser linda, muitíssimo bem executada, reflete perfeitamente a alma do livro — não que ela represente uma cena, exatamente, do romance, mas todos os elementos — e o clima — da ilustração são fidedignos ao que se encontra na história. Então, e a história? Vou contar a vocês que nunca imaginei que Stephen King pudesse ser tão… murakamesco. Quê?! Murakami e King na mesma frase? Sim! Olha que fantástico! Devin Jones, o protagonista de Joyland, poderia muito bem ser um personagem escrito pelo japonês — é melancólico, é uma boa pessoa, adora caminhar para aproveitar seus momentos de introspecção, é altamente mediano (mas com eventuais arroubos de protagonismo)… mas, apesar disso tudo, é um personagem cativante. Os coadjuvantes, como em qualquer obra do King, são adoráveis; bem-construídos e realistas — tanto que, lá pela metade do livro, eu me pego pensando: “que merda… esse é um livro do Stephen King… logo, logo, alguém vai se foder grandão… alguém ou todo mundo… vai vendo…" — mas, incrivelmente, não! Não estou dando spoiler; estou só dizendo que esta não é uma história típica do Stephen King! Arrisco mais uma vez dizer que é uma história que Haruki Murakami escreveria se fosse obrigado a escrever um thriller. Então, acreditem no que eu digo: o mestre King sempre surpreende. Leiam sem receio.



Mais uma vez, outro que deixei passar o hype para ler o Guerra do velho, e posso dizer com toda a tranquilidade: QUE LIVRO FODA. A começar pela capa, que vende exatamente o que a história é. Passando pela escrita do John Scalzi, que é leve, fluida e sem grandes pretensões. Continuando pelos personagens, que são cativantes e bem construídos (só acho que o protagonista é sortudo até demais…). E culminando na história, que, basicamente — e o autor não esconde isso de ninguém — pegou a ideia apresentada em Tropas estelares e a ampliou para um universo interessante, variado e coeso, com adendos de incrível criatividade. Guerra do velho pega o que foi consolidado com as grandes space operas do passado e entrega uma história moderna e deliciosa. 'Bora pro próximo livro, o As Brigadas Fantasma :)



E, enfim, a trilogia Comando Sul do escritor Jeff VanderMeer termina, com o romance Aceitação… e eu tenho algumas considerações tanto do romance quanto da trilogia em geral — e, inclusive, do filme Aniquilação. Mas, Rahmati, do filme também? Sim, porque o filme é um resumão da trilogia toda. Mas, antes, ao que interessa: esse terceiro volume é tão bom quanto o primeiro, ou mesmo tão razoável quanto o segundo? A resposta é simples: não. E talvez o culpado disso seja o filme. Vejam bem, não estou dizendo que os livros são ruins. A história toda é uma das coisas mais estranhas que eu já li — aliás, essa seria uma boa definição das duas mídias, livros e filme: é uma grande história de estranhamento com momentos de terror. Só que, enquanto o primeiro volume te introduz num mundo original para caramba, o segundo monta as bases e o terceiro dá os toques finais — porque não dá explicações, coisa que o filme faz. O problema é que os livros, falando do Autoridade e do Aceitação, enrolam demais. Dava, com folga, para ter feito um único livro, lá com suas 450 páginas, mas que fosse mais direto ao ponto, assim como o filme fez. Então o filme é uma boa adaptação? É! Porque tudo o que tem no livro está lá de alguma forma (e aqui vão os spoilers de ambos): o bicho que grita, que foi transposto para o urso decomposto; o duplo do faroleiro, que virou o duplo do marido da bióloga; o rastejador, que se transformou no alien do final… Só não gostei do filme ter entregado a origem da Área X na primeira cena, mostrando o meteoro. Mas… e o personagem John Rodriguez, o Controle? Sério: o que ele fez no livro? Serviu para quê? Não fez falta nenhuma. Em resumo: eu explico a Área X para mim mesmo como uma espécie de câncer do planeta. No filme, é aquele câncer que mata rapidamente; no livro, é o que mata aos poucos.



Comentários nesse post :)

* * *


CONTO:


Mais um ótimo texto do Leonel Caldela, esse conto O cão é bem-escrito, denso, dramático e impactante. É uma história de fantasia que dialoga com outras obras do autor, como O código élfico e O caçador de apóstolos, mas não creio que se passe realmente no universo de alguma delas. É mais como uma “realidade alternativa", acho (coisa que gosto de fazer nas minhas obras também; todas têm elementos umas das outras). Para não variar, Leonel é brutal com seus personagens — e, aqui, isso se reflete principalmente no final, porque, apesar de eu imaginar que havia alguma coisa ali, eu jamais poderia esperar aquilo. Mais um ponto para o Caldela, e espero ansiosamente sua próxima obra que não for da série Ruff Ghanor.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Leituras de Março



Embora eu não tenha lido tanto quanto o mês anterior, em que eu estava de férias, creio que foi um mês bom… Não consegui manter meu padrão de 1 livro por semana, mas não posso reclamar, porque estou lendo simultaneamente alguns livros de contos ou crônicas, que vão demorar um pouco a dar as caras por aqui… Assim sendo, vamos aos comentários das leituras do mês.


ROMANCES:





O primo Basílio entrou para o rol das obras que me surpreenderam porque eu nada delas esperava. O escritor, o português Eça de Queirós, faz jus à fama que tem: é um excelente escritor e igualmente talentoso contador de histórias. Inclusive, a trama do livro é mais “moderna" do que eu imaginava; cheia de reviravoltas, de detalhes dos bastidores da sociedade da época que eu julgava serem característicos do século XX, pelo menos, como neste trecho… E com um final bastante satisfatório — ao menos para o meu gosto. Um adendo sobre a modernidade da história: imagino que seja devido a Portugal ser um país bem mais velho que o Brasil, e, por isso, certos costumes que aqui pareceriam “um absurdo" à nossa sociedade conservadora são por lá tão anteriores… Ou não; pode ser que tais costumes somente não eram tão descritos em nossa literatura da época. Preciso estudar melhor essa questão. De qualquer forma, é um excelente livro. Achei melhor que o outro clássico que li recentemente, o Orgulho e preconceito. E essa capa que coloquei não é a da versão que eu li, é só porque ela é a mais bonita que encontrei. Não coloquei a da que li porque foi em um e–book de antologia das obras do Eça, a Obra completa de Eça de Queirós vol. I: Romances 1870–1880.




Eu, geralmente, fujo de livros quando há um hype sobre eles; assim, esperei a poeira baixar e as críticas se tornarem mais imparciais para decidir se leria ou não o Caixa de pássaros do escritor Josh Malerman. Como os leitores ainda estavam sendo favoráveis, resolvi encarar a tarefa e não me arrependi. No romance de suspense / terror psicológico, alguma coisa está deixando as pessoas loucas — alguma coisa que elas veem. Assim, todos começam a tapar as janelas e só sair nas ruas vendadas. Claro que isso, ao longo do tempo, destrói com qualquer possibilidade de sociedade organizada — muito a exemplo de Ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Nesse livro, acompanhamos a mãe de duas crianças, e, em tempo real e em flashback, descobrimos o que ela está fazendo e como as coisas foram ficar daquele jeito — ou melhor, a visão dela de como as coisas degringolaram, o que, para mim, acaba sendo mais interessante. Mais duas coisas coisas me agradaram nesse livro: a escrita do autor, que, apesar de ser meramente uma ferramente para narrar a história, é simples e de fácil leitura, tornando a imersão fácil e prazerosa. A outra coisa que me agradou foi a escolha do autor de não mostrar, não explicar nada, mais ou menos como seria com qualquer um de nós se passássemos por algo como o que aconteceu ali. Não é o melhor livro de terror (ou suspense, sei lá) que eu li, mas fiquei, sim, angustiado em alguns momentos, e valeu muito a leitura.




Finalmente li esse clássico! Apesar de Fundação, do Isaac Asimov, não poder ser chamado de emocionante, para mim foi um livro muito interessante. Na história, é narrada a criação da Fundação, uma instituição destinada a minimizar o impacto de uma grande era negra da cultura a que o Império Galáctico fatalmente enfrentará. Essa grande crise foi “profetizada" — na verdade calculada pelo psico–historiador Hari Seldon, uma espécie de super–estatístico que, através de sua ciência, pôde prever com uma precisão assustadora o futuro da espécie humana, calculando inclusive variáveis psicológicas (daí o nome psico–historiador) na equação. Eu disse que o livro não é emocionante porque ele não se prende a personagens centrais; ao contrário, ele mostra três grandes momentos da Fundação, literalmente firmando suas bases para os próximos livros da trilogia. Certamente vou ler os seguintes, mas não estou com aquela pressa, justamente porque me pareceu mais uma leitura para conhecer um clássico completamente do que realmente por encantamento com a história.


CONTOS:




Obsolescência, do Alec Silva: Apesar da capa e da ideia do conto serem boas, eu tenho ressalvas em relação a ele. Se você, leitor, acompanha o blog há algum tempo, pode ter percebido que eu já estou relativamente cansado de distopias. Mês passado mesmo li uma que gostei, por isso o “relativamente”; não fechei a porta para elas. A questão é que, para mim, as distopias têm que 1. fazerem sentido; 2. não serem exageradas demais; e 3. não serem inocentes (às vezes esse item se mistura com o anterior). Enquanto o conto é muito bom no item 1, porque trata de uma sociedade onde todo mundo é obrigado a consumir, tendo o governo sido substituído pelo “mercado”, seja lá o que isso significar, e que aqui tem uma representação indissociável do governo regulamentador, gerando uma mescla de conceitos interessante , ele peca no item dois, e isso quebrou minha imersão, por ter — a meu ver — quebrado a verossimilhança (estou me referindo aos açougueiros, para quem já leu). Exageros desse porte me parecem demais numa sociedade civilizada, resvalando perigosamente no item 3… Além disso, o conto usa muito do “as you know, Bob” — o tropo do personagem que explica para outro algo que ele já sabe, mas que na verdade está explicando é para o leitor/expectador.

O Mercador de Sonhos, do M. M. Schweitzer: Essa é a minha segunda incursão ao universo de Morserus, e me deparei com mais um conto interessante! Apesar de eu ter esperado aprender mais sobre esse mundo fantástico, onde os humanos não existem e os animais, antropomorfizados, assumem seus lugares, o que se encontra nesse conto é a aventura ao subconsciente de um único personagem — Ollie, um porco de 15 anos de idade e cheio de traumas e sonhos, como qualquer adolescente. Acaba sendo uma fábula muito criativa e bem escrita, descontados os errinhos de revisão. No entanto, parece–me que o autor teve a ideia para uma história “genérica” — não no sentido ruim, mas no sentido de uma história que poderia se passar com qualquer pessoa — e decidiu ambientá–la também em seu universo. Isso não traz qualquer problema; muito pelo contrário — só reforça ainda mais meu desejo de aprender mais sobre esse mundo. (Aliás, pensando aqui sobre esse conto e sobre o anterior que li, o Banquete para fantasmas… Será que é assim que o autor vai apresentar seu mundo, em todos os contos — pequenos drops, histórias pontuais que mostram só uma peça do quebra–cabeças de cada vez…? Interessante se for…)

sexta-feira, 16 de março de 2018

Um trecho marcante de Eça de Queirós


E deleitava–se nas recordações do colégio! Que bom tempo! 
— Lembras–te quando estivemos de mal? 
Luísa não se lembrava… 
— Por tu teres dado um beijo na Teresa, que era o meu sentimento — disse Leopoldina. 
Puseram–se a falar dos sentimentos. Leopoldina tivera quatro; a mais bonita era a Joaninha, a Freitas. Que olhos! E que benfeita! Tinha–lhe feito a corte um mês!… 
— Tolices! — disse Luísa corando um pouco. 
— Tolices! Por quê? 
Ai! era sempre com saudade que falava dos sentimentos. Tinham sido as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciúmes! Que delírio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida! 
— Nunca — exclamou — nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti pela Joaninha!… Pois pode crer…

Eça de Queirós – O primo Basílio (1878!)

sexta-feira, 2 de março de 2018

Primeiros contos da “Some of the best from tor.com 2016 edition”


Comecei há algum tempo a ler os contos da antologia de contos de 2016 lançados separadamente pela tor.com, mas como leio devagar as antologias e coletâneas — gosto de digerir os contos antes de partir para o próximo —, vou falar aqui dos primeiros da coletânea.

Mas, antes, uma constatação: eu ADORO essas capas dos contos da Tor :D


Começamos pelo conto Clover, da Charlie Jane Anders. Esse conto é muito interessante: conta a história do casal Anwar e Joe através dos olhos de Berkley, um gato que é dado aos dois um dia depois de se casarem, com a promessa de que teriam nove anos de sorte desde então. Após esse período, Berkley vê o casamento dos donos entrar em colapso e, para piorar tudo, a chamada de uma nova moradora, a gatinha do título, Clover, para disputar o seu espaço. No entanto, Clover alega já ter sido uma humana. É um conto muito bem escrito — para os padrões de quem está começando a ler em inglês e pode avaliar pouco isso — e muito bem ritmado em sua trama.

* * *


The art of space travel, da Nina Allan: Um conto mais longo e excelente. Narra, em primeira pessoa, a história de Emily. Ela trabalha em um hotel que está para receber, como hóspedes, dois astronautas que estão indo para Marte, em uma viagem só de ida. É a segunda tentativa de fazer isso, porque a nave espacial da primeira sofreu um acidente e não chegou ao destino. Além disso, a mãe de Emily sofre de Alzheimer, e guarda o mistério de quem é o seu pai — e tudo está interligado, de uma forma ou de outra.

* * * 


The destroyer, da Tara Isabella Burton: Aqui conhecemos a história de uma menina nascida por geração espontânea através das artes de uma cientista meio maga, que passa a trabalhar para o César de uma Roma retrofuturista (pelo que entendi, hehe). Essa cientista transforma a filha, clone dela mesma, cada vez mais em uma androide, substituindo aos poucos suas partes orgânicas, e, refletindo o modo como trata a filha — nada nunca está bom o suficiente — ela passa a ambicionar cada vez mais com suas invenções, ao ponto de mudar o mundo. Pelo jeito essa coletânea só vai ter contos ótimos.

* * *


Traumphysik, da Monica Byrne: A personagem principal é uma cientista militar que é mandada para um atol, durante a Segunda Guerra Mundial. Lá, ela começa a desenvolver um estudo das leis da física dentro do mundo dos sonhos — por isso traumphysik, em alemão (o marido dela é alemão) ou dream physics: física dos sonhos. É um conto maluco, como deve ser para falar de sonhos, e o final é inesperado. Muito bom também.

* * *


The high lonesome frontier, da Rebecca Campbell: Para onde a água corre? Esse é o título da, digamos, música–tema do conto, inspirada por descobertas da ciência, e esse conto é a história de sua composição, perdida no tempo, passando por todas as suas regravações e as impressões e/ou modificações que a música trouxe aos ouvintes ao longo do tempo, de 1902 até 2068. É uma narrativa fragmentada e muito interessante. Embora não seja unanimidade entre os leitores, eu curti bastante esse conto.

* * *


Lullaby for a lost world, da Aliette de Bodard: Esse foi o conto que eu menos gostei até agora. Escrito em segunda pessoa, ele mostra a história de uma menina que foi morta por um feiticeiro, dono de uma mansão, e enterrada nos fundos da propriedade. Isso parece fazer parte do ritual que lhe traz seus poderes, inclusive, e a menina não é sua única vítima. Apesar de não ser um conto ruim, de forma alguma, seu azar é vir após os anteriores; é muito simples se comparado a eles.

* * *

Bom, é isso aí — esse foi o primeiro dos posts falando dos contos dessa antologia. Se você consegue ler em inglês, recomendo que compre esse e–book, especialmente porque ele está de graça na Amazon. A editora Tor faz a antologia dos contos publicados desde 2013, e esse ano, 2016, é o único que não está sendo cobrado, então aproveite enquanto pode.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Leituras de Fevereiro


Esse mês foi um mês prolífico, haha! É que eu estava de férias, e como não viajei, aproveitei para ler o máximo que podia :) — e, na verdade, tem bastante coisa porque li alguns contos soltos também, e, como não falo deles nas retrospectivas anuais, vou aproveitar para divulgá–los por aqui.


Vamos às leituras do mês, então.


LIVROS:


E, finalmente, li esse clássico! Do autor, já tinha lido A revolução dos bichos, então sabia da qualidade da prosa do autor, mas, por qualquer motivo, estava postergando a leitura desse 1984. Honestamente, eu não sei o que esperava desse romance, mas acho que não esperava algo tão atual assim… Pode ser que em outros países o livro funcione mais como um aviso, mas, aqui no Brasil, é como se fosse uma mera extrapolação do que já está acontecendo… O emburrecimento das massas para a tomada do controle… A vigilância quanto às práticas — se não por parte do governo, por parte de seus “minions”… A instauração de um grande líder como salvador do povo… A lavagem cerebral como medida mais eficiente para que não se questione o sistema, e sim o veja como a única solução possível. Acabou sendo um livro que me deixou mais triste do que eu esperava. Uma coisa que eu não esperava era que houvesse romance no livro, e ele foi tão bem conduzido e realista que acaba me fazendo admirar ainda mais o Orwell enquanto escritor do que antes. A capa dessa edição é meio estranha, mas sei que isso é uma opinião que envolve gosto — logo, subjetiva.

* * *


Primeiramente, preciso falar: que capa LINDA esse livro tem! Sério, demais mesmo! E sabem o que é melhor? A qualidade dos três contos que o compõem acompanha a qualidade da capa :D

O desejo de ser como um rio, que dá título ao livro, é um conto profundo e melancólico, e descobrir o que significa o título é um deleite a mais. A escrita da autora é muito precisa, e passa muito bem tanto as cenas quanto os sentimentos que quer causar no leitor. Foi um conto que mexeu muito comigo, justamente por causa do tema — a morte. Quem me conhece sabe que a finitude da vida é um tema que me incomoda muito. O segundo conto, Amigas infláveis, é muito divertido, e com um toque de ironia que é delicioso. Mais uma vez, a escrita é precisa e gostosa, e as situações apresentadas na trama seriam “apenas” muito divertidas, se não trouxessem uma reflexão tocante sobre o envelhecimento e a solidão. Agora, no último, A mulher na bacia de água e sal, eu confesso que fiquei perdido. A mensagem do conto não é difícil de ser apreendida, mas acho que precisa de mais uma leitura para sua “trama” ser apreendida melhor…

De qualquer forma, ficou muito forte a vontade de ler o livro de novo para absorver melhor os detalhes dos três contos, porque mesmo no mais simples deles, as “pequenas coisas” são inúmeras. A escrita da Claudia Dugim me parece tão rica que, quanto mais for relida, mais forte fica.

* * *


Confesso que já fazia um bom tempo que um livro de ficção científica não me deixava “boiando” na explicação da ciência nele usada — ou seja: já fazia um bom tempo que eu não lia um livro de FC realmente inovador, então. Não que o tema desse aqui o seja: é um tema repetido à exaustão (e quais não são?). O que é diferente é todo o resto — a ambientação; o modo como o “problema” é apresentado; a imaginação em relação às… inovações biológicas, vamos dizer assim, relacionadas ao problema dos três corpos; a tecnologia usada pelo “vilão”… São bastantes coisas que me surpreenderam positivamente nesse livro, e só não posso dar mais detalhes para não revelar os segredos da trama — e descobri–los é um dos maiores atrativos da leitura desse romance do chinês Cixin Liu. Que bom que as editoras estão traduzindo mais obras de FC contemporâneas, e espero que isso não pare nunca mais. (E também espero que a editora publique a última das duas continuações, que o autor menciona no posfácio — a primeira delas já foi publicada, chamada A floresta sombria —, porque a história já me conquistou.)

* * *


Autoridade é o segundo livro da trilogia Comando Sul e continuação direta de Aniquilação, do autor Jeff VanderMeer. O primeiro livro, como vocês podem ver aqui, foi escolhido como o melhor livro internacional que li em 2016. Autoridade, no entanto, muda bastante o foco da narrativa. Se em Aniquilação o foco é na 12.ª expedição à Área X, aqui acompanhamos o personagem de codinome “Controle”, o novo diretor do Comando Sul — a agência paragovernamental que tenta entender a Área X. O problema é que ele meio que “cai de paraquedas” na história toda, e, além de ter que desvendar o mistério da área anômala, tem que prosseguir com a investigação iniciada pela antiga diretora — não vou dizer o porquê para não dar spoiler —, conhecer os funcionários do Comando Sul, interrogar uma das sobreviventes da 12.ª expedição… e reportar suas atividades e o que descobriu — o que, praticamente, nem ele consegue resumir.

É um livro bem mais lento do que o anterior, mas o desenvolvimento da trama é essencial para absorver o nível de terror dos momentos finais do romance. Absorver, não entender — porque o terror em Autoridade acontece num nível tão absoluto que deixa a conclusão da história tão difícil de especular que, para mim, literalmente qualquer coisa será possível a partir de agora. É com o nível de expectativa no máximo que vou iniciar a leitura de Aceitação, o terceiro volume — e vou fazer isso imediatamente, aproveitando que tenho os três lindos volumes físicos que compõem a história.

* * *


A máquina de contar histórias é a primeira coisa que li do autor Maurício Gomyde. Provavelmente não vou ler nada mais. Não que o livro seja ruim: é bom. É só que não é para mim. Claro que chorei no final, porque sou uma moleza de uma manteiga derretida, mas achei a história clichêzenta até falar chegar, a escrita brega, o personagem principal que parece o tiozão do pavê (o que não quer dizer que ele seja mal construído, ou qualquer das outras personagens), a história cheia de lições de moral… Enfim, não é mesmo para mim.

* * *


E esses dois e–books estão juntos porque foram os abandonos do mês — e, ambos, embora de gêneros diferentes, pelo mesmo motivo: por causa dos clichês. Até alguém se machucar é uma novela de romance erótico, e com ela aconteceu a mesma coisa de todas as vezes em que eu tentei dar uma chance para esse gênero: tudo é pretexto para as pessoas transarem. Olharam um pro outro? Sexo. Trombaram na rua? Sexo. Duelaram até a morte num pântano mortal? Sexo. Ainda se tivesse trama… Agora a outra novela, Os cavaleiros do inverno, até que estava indo bem: a autora escreve bem (as duas escrevem), a história parecia promissora, começando com um mistério… mas, quando vi que a protagonista relutante adolescente ia descobrir ser, na verdade, uma bruxa herdeira de um trono em um reino mágico, cuja verdade lhe fora ocultada possivelmente para que fosse protegida… ah, já deu pra entender, né? Desculpem, mas ambas as histórias não são pra mim.

* * *

CONTOS:





Banquete para fantasmas, do M. M. Schweitzer: Já tinha esse e–book há um tempo no meu Kindle, ainda na época que eu tinha só o aplicativo, e, apesar de ter achado a premissa interessante, não tinha me animado a ler ainda. Acontece que, lida, a história — e o mundo onde ela se passa — é muito mais interessante do que parecia! No mundo criado — Morserus — não existem humanos; os animais é que são antropomorfizados. Eles tem uma civilização essencialmente semelhante à nossa, mas a magia tem espaço nela. Nessa história, um (ao que parece) investigador sobrenatural é convocado para resolver o mistério de uma ricaça, onde fantasmas se reúnem à noite para banquetearem na sala de refeições. O que eu mais gostei, contudo, foi o clima sério, decadentista — poderia dizer noir — do conto, e, ainda que o e–book apresente erros de revisão, o tom do mundo me motivou a procurar mais histórias nele passadas. A parte boa é que todos os contos estão de graça na Amazon. O próximo que vou ler chama–se O mercador de sonhos.

La gran nevada, do Holden Centeno: Esse conto (em espanhol) sobre o Natal me agradou bastante. O protagonista conta uma história de um Natal ocorrido há muitos anos, no ano da tal grande nevasca. É um conto intimista, bastante emocional e bem escrito o suficiente para que nos importemos com os personagens. Na trama, o protagonista vai passar o feriado com os tios, em sua cabana afastada, e descobre o porquê de ela ser toda cercada por salgueiros–chorões — a árvore que está na capa, que, aliás, representa muito bem os elementos da história criada pelo autor. Essas árvores, com o desenrolar da trama, levam a um desfecho emocionalmente devastador, muito tocante mesmo, daqueles que dão um nó na garganta, mas eu não posso revelar mais do que isso sem estragar a experiência de quem vai ler. (E, se você souber só um pouquinho de espanhol, acho que já dá pra ler de boa; se agarra nas semelhanças com o português, pega o sentido geral da frase e toca pra frente :P) Quando eu o comprei na Amazon estava de graça; se ainda estiver, corre lá que vale muito a pena.

A moldura vazia, do Bruno Martins Soares: é um conto sobre o buraco que a morte de uma pessoa deixa na vida dos que o cercam. É um conto melancólico e por vezes brutal, alegórico mas realista, que evoca aquela sensação que às vezes temos de estarmos vendo nossa vida com um olhar de fora da cena, de parecer que perdemos o controle dos nossos passos… É um conto que retrata bem um sentimento que é familiar a todos que perderam alguém — o de ter um quadro chamativo, que ocupa um grande lugar na parede, mas que não retrata mais nada.

If at first…, do Peter F. Hamilton: uma história muito boa sobre viagem no tempo. Um cara é preso por ter invadido o laboratório de uma empresa de pesquisas de um milionário do ramo — só que as coisas não são tão simples: ele diz estar atrás dos planos de uma máquina do tempo que esse milionário estaria desenvolvendo. A princípio, os policiais que o estão interrogando não acreditam em nada do que ele diz, obviamente, mas ele acaba conseguindo uma única chance de provar que diz a verdade… e é aí que as coisas dão errado. É um conto curto, e vale muito a pena — principalmente porque está de graça na Amazon. Se você consegue ler em inglês, não perca tempo. (O e–book tem também um trecho de um romance do autor, que eu não li.)

Metastasis, do Jacques Barcia: Apesar de ser de um autor brasileiro, é um conto escrito em inglês. É uma história de fantasia, embora não seja — é como se fosse uma metáfora. A trama é simples: uma quimera descobre que tem câncer, e decide percorrer o mundo em busca da cura. No entanto, entre lutas e perdas, ela descobre que o mundo não é um lugar fácil, e que nele você acaba confrontado com verdades difíceis de aceitar. Se você for ler, pode ser que ache o conto confuso no começo, mas prometo que no final as coisas se amarram. Muito bom mesmo; senti um toque de Gaiman na narrativa, e isso só pode ser bom.

* * *